jueves, 24 de noviembre de 2016

J. RENTES DE CARVALHO [19.629]


José Rentes de Carvalho

Nació en 1930 en Vila Nova de Gaia, Portugal, donde vivió hasta 1945. Estudió en el Liceo Puerto Alexandre Herculano, y más tarde en Viana do Castelo y Vila Real y asistió a Derecho en Lisboa - donde hizo su servicio militar. Obligado a abandonar el país por razones políticas, vivió en Río de Janeiro, Sao Paulo, Nueva York y París, trabajando para periódicos tales como el estado de Sao Paulo, O Globo y la revista O Cruzeiro. En 1956 se fue a vivir en Amsterdam, los Países Bajos, como asesor del Agregado Comercial de la Embajada de Brasil. Se graduó (con una tesis sobre Raul Brandão) en la Univ. Ámsterdam, donde fue profesor de literatura Inglés entre 1964 y 1988. Se dedica desde entonces exclusivamente a la escritura y una amplia cooperación en los periódicos portugueses, brasileños, belgas y holandeses, además de varias revistas literarias. 

OBRAS:

Montedor, 1968 com prefácio de António José Saraiva 
O Rebate, 1971
Com os Holandeses, 1972
Portugal, a Flor e a Foice, 1975 (publicado na Holanda)
A Sétima Onda, 1984
La Coca, 1994
Ernestina, 1998
A Amante Holandesa, 2003
Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia, 2011
Tempo Contado [Grande Prémio de Literatura Autobiográfica da Associação Portuguesa de Escritores, 2012]
Mazagran [Grande Prémio de Crónica da Associação Portuguesa de Escritores, 2013]
Mentiras & Diamantes, 2013
Pó, Cinza e Recordações, 2015
O Meças, 2016



(Escutar)

Sentado num socalco, a cabeça a repousar no cajado, hábito de pastor, agora só de vez em quando entreabre os olhos, a certificar-se de que ainda o escuto.
E eu escuto-o, traduzindo para a minha própria versão as palavras simples com que ele exprime a sua história, ao mesmo tempo que embelezo, aumento, acrescento.
Finalmente, também cerro os olhos, não para melhor o seguir, mas para que apenas reste a voz incorpórea e eu sinta menos rancor pelo companheiro que, sem o saber nem suspeitar, pouco a pouco vai matando o meu sonho.

A Amante Holandesa
(2003)


(Instantes)

Manhãs de geada, névoa, quietude.
O fumo a prolongar em colinas cinzentas o negro dos chupões, ou escapando em novelos azulados por entre as telhas dos casebres.
O cheiro acre de um estábulo.
A  súbita presença de rostos, cenas corriqueiras, como se à revivência desses instantes ínfimos se cole um significado impenetrável, um mistério.
O que causará a visão insólita do sorriso de um estranho, cruzado há séculos numa rua anónima, e desde então esquecido?
Porque ressurge, tão vívida e colorida, a imagem de cestos de uvas numa vinha?
A de uma sala onde só estive momentos?
Que mecanismo me faz ouvir de novo o ladrar dum cão numa noite de Inverno? 

A Amante Holandesa
(2003)



(A paisagem)

A paisagem de campos e bosques que se via do meu quarto, o rio, as serranias, a nesga de mar ao pé de Santa Tecla, isso de facto seduziu-me.

Mas era serenidade demais, beleza demais, um equilíbrio tão perfeito que logo me faltou a desordem e o bulício a que me tinha habituado na infância, quando da minha janela olhava para o Porto.

Aqui tudo respirava paz.

Em vez da cacofonia citadina os ruídos eram distintos, cada galo esperava o seu momento de poder cantar, o ladrar dos cães espaçado como um diálogo.

Na estrada o trânsito era quase nulo.

Durante o dia inteiro passavam na linha uns quatro ou cinco comboios, mas o silvo das locomotivas e o matraquear das rodas nos carris ouvia-se de longe, ia crescendo gradualmente, chegava, diminuía, era apenas um traço sonoro a vibrar por instantes na quietude do ar.

La Coca, Quetzal (2011), p. 67.



(Os laços)

Eu julgara ter vindo com a intenção consciente de procurar os laços que unem o presente ao passado, de torná-los visíveis através de peripécias, de personagens, da visita de lugares.

Mas agora, vagueando pela praia – o Pardal tinha ido aos seus negócios e parecera-me mais acertado não estar presente – a visão romântica começara a desmoronar-se.

Com alguma preocupação dava-me conta de que os laços que julgava discernir, de facto existiam apenas na minha fantasia, no meu desejo de ordenar, colorir, de tornar num todo harmonioso o parcelamento caótico da realidade. 

De juntar as estilhas e os cacos para com eles construir o meu relato e manter a ilusão de que a vida flui, quando ela na verdade é feita de retalhos e inquietações, de sobressaltos e cortes.

La Coca, Quetzal (2011), p. 74.




(Caminho pela cidade)

Caminho pela cidade com um sentimento de desconforto, pois sem ser nela totalmente um estranho, também lhe não pertenço.

Sou o passante que deambula pelo cenário da sua juventude e revê com outros olhos os lugares que a marcaram, despertando negrumes, surpreso ao dar-me conta de como foram profundas mas inúteis as dores de então, passageiras as alegrias, paralisantes aqueles sonhos em que as dimensões do mundo eram constantes e harmoniosas.

Terei de facto sido assim?

Melancólico, deixo que o passado desfile em cenas que não são de vida vivida, mas painéis desbotados num panorama de artifício.

Não me interessam as ruas, as gentes, as casas, as vibrações do dia soalheiro.

Vou ensimesmado, descobrindo que nem a experiência dos anos me ajudará a conciliar as vozes desencontradas que dentro de mim ora animam a agir, ora me censuram os actos, as palavras, os desejos.

Que me culpam por não ser capaz de duma vez para sempre sacudir os entraves da memória, me acusam de fraqueza por retornar aos lugares onde sofri com um impulso tão irreprimível como o que dizem que leva os assassinos a rever o lugar onde, ao matar, também de certo modo morrem.

La Coca, Quetzal (2011), p. 33.



(O Porto já não é)

Escuro, pitoresco, desleixado, o Porto já não é a metrópole que foi na minha infância.

As pontes e a estação, o palácio do bispo, a Sé, a Torre dos Clérigos, tudo isso se mantém, e vista da margem esquerda a paisagem da cidade continua esplêndida.

Mas nos rostos das pessoas há mais sombras que sorrisos, o ar de algumas ruas é de mau agouro.

O rio lá está, quase sem movimento, com pouca vida, só de longe a longe um ou outro naviozito se arrisca a passar por entre as línguas de areia que lhe assoreiam a foz.

Os rabelos envernizados que agora o navegam são falsificações da publicidade e na beira-rio lodosa de Gaia, que conheci cheia de bulício, a ferver de agitação, deitaram placas de cimento e fizeram esplanadas onde os turistas se sentam a beber cerveja, de costas para a cidade para melhor tomarem o sol.

Passo, olho, vou adiante e minto a mim próprio, dizendo-me que é absurdo carregar o peso morto do passado.

La Coca, Quetzal (2011), p. 16.



(Relâmpagos de memória)

Relâmpagos de memória.

Tão vivos como se os factos acabassem de acontecer.

Por vezes incómodos, feitos juízes, opondo-se aos arranjos que inconscientemente propomos para moldar as versões do passado.

Desagradáveis também, recusando sumir no fundo para onde os queremos empurrar.

Ou meigos como ternuras de amante, embelecendo a lembrança, colorindo e tornando duradouro o que foi cinzento, o que foi fugaz.

A memória que nos põe em palcos onde nunca estivemos, fazendo-nos ouvir o aplauso nunca recebido.

A memória, com seus sobressaltos e mistérios, as suas sombras, cheia de ziguezagues, reviravoltas, impasses.

Cheia também de armadilhas em que de boa vontade caímos, a tecer a interminável teia do que não foi mas podia ter sido, da ficção tornada real à força de sonhada.

A memória e o seu comparsa, o esquecimento.

La Coca, Quetzal (2011), p. 15.




(Os barcos da pesca)

Os barcos da pesca, tábuas frágeis puxadas a remo, apareciam um momento no vazio das ondas, depois na crista, ora a pique ou então de proa para cima como se fossem voar, bamboleando naquela contradança de vento e água.

Os homens que não remavam víamo-los em pé, num equilíbrio impossível, fazendo contrapeso.

Ou então agachados, presos ao rebordo, recebendo nas costas as pancadas do mar, às vezes pegando num remo a dois, a deitar a mão ao companheiro que fraquejava.

De través, às arrecuas ou de proa, ganhando metros, perdendo metros, os barcos iam-se aproximando da praia cheios de cautela, os olhos dos homens atentos à corrente.

Por fim, à força de braço, de jeito e orações, aproveitando uma onda mais mansa, deixavam-se levar por ela e encalhavam no areal.

Ernestina, Ed. Escritor, Lx. 2001, p. 162.



(O rio ao amanhecer)

Não eram muitas as vezes que eu podia ver o rio ao amanhecer, e por isso me deixava arrastar, ao que ela respondia puxando-me com safanões que magoavam o braço.

Pouco importava.

Não era só a vista, nem a proximidade de tudo o que eu só estava habituado a ver de longe.

Ao passar recebia em cheio os odores que só conhecia atenuados, ouvia ruídos que a distância agora não abafava, tinha a impressão de que se quisesse podia tocar o casco dos navios.

O cheiro inconfundível da estopa de calafate, o piche, o fedor dos óleos, o eflúvio acre da maresia, o odor forte de vinho derramado, mijo dos bois, madeira serrada de fresco, fruta podre, o fumo do carvão, o cheiro das tabernas fechadas.

O chape-chape da água a acompanhar o ruído dos nossos passos, chamamentos em língua estranha, o bater das horas repetido de torre para torre, toques de corneta militar, campainhas de bordo, o matraqueio dos cavalos e das carroças a ecoar na rua vazia, o pio das gaivotas, os pregões do alvorecer, os sinos, os primeiros gritos, o maravilhoso despertar do mundo.

Ernestina, Ed. Escritor, Lx. 2001, pp. 183-4.



(E agora desandasse)

Nessa ocasião, alguém o tinha empurrado para fora da sacristia antes de o poder corrigir com um par de tabefes, e agora ali estava Sua Senhoria, de chapéu na mão, a pedir que lhe fizesse o favor de preparar os banhos do casório.

Ah! Mas a coisa não ia ser tão simples como o pateta julgava.

E ia pagar.

Dobrado, para aprender o que era respeito.

Quantos anos tens, ó tu?

Vais fazer vinte em Junho?

Dobrado também, por ser menor.

E sois primos carnais?

Redobrado, porque isso era questão para decidir em Roma e a dispensa tinha de vir com os selos do Santo Padre.

Havia urgência?

Era para casarem já no Janeiro?

Triplicava tudo.

Dentro de duas ou três semanas o sacristão lhes diria e tivesse a massaroca pronta, porque se os prazos caíssem teria de pagar tudo outra vez.

E agora desandasse.

Ernestina, Ed. Escritor, Lx. 2001, p. 97.




(A menina Alice, do vestiário)

A Alice sorriu surpreendida, mas explicou que éramos tantos a dar-lhe chocolates e rebuçados que também já tinha dito aos outros que dali em diante preferia dinheiro.

O meu gesto, contudo, não tinha sido em vão, porque além de me beijar nos lábios – a primeira vez – sentou-se na cadeira atrás da máquina de costura, facilitando os meus manejos ao diminuir a diferença das nossas alturas.

Depois retomou o crochet, enquanto os meus dedos lhe percorriam o corpo com a sofreguidão que dá o pressentimento das grandes descobertas.

A certa altura abanou a cabeça a proibir, noutra pediu baixinho que não lhe fizesse cócegas.

Repentinamente deixou cair as agulhas e apertou-me contra si, colando a sua boca à minha noutro beijo, esse tão longo que me deixou sem ar.

Ernestina, Ed. Escritor, Lx. 2001, p. 221.




(Ala que se faz tarde)

As mulheres baixaram os olhos a temer o que iria sair e porque não demorava a ser horas de ir para a cama, pegaram de novo na renda.

Como num prólogo, ou a dar-se coragem, o rapaz tossiu a raspar o gogo, escarrou para o lume, acariciou o cão que se lhe tinha deitado aos pés e, por fim, sem as encarar, gritou-lhes que dali em diante não contassem com ele para a lavoura.

Chamassem jeireiros, dessem as terras de meias ou deixassem-nas ao abandono, o que quisessem, ele é que não lhes voltava a tocar.

Nem nas bestas.

Nem no raio que partisse tudo.

A mãe e a prima podiam ir também, podiam ficar, como lhes desse na gana, ele é que não aguentava nem mais um dia; ficassem a saber que voltava para o Porto.

Ala que se faz tarde, nunca mais o apanhavam naquele estupor de buraco.

Ernestina, Ed. Escritor, Lx. 2001, p. 94.




(Óleo de fígado de bacalhau)

A garrafa de óleo de fígado de bacalhau acendeu vívida a recordação e instintivamente afastei-me da mesa, mas nessa noite e daí em diante a minha resistência seria vã.

Unidos como nunca os tinha visto, meu pai sentou-se na cadeira e, segurando-me os braços atrás das costas, prendeu-me as pernas entre as suas para evitar que esperneasse; minha mãe puxou-me a cabeça para trás, apertou-me o nariz, meteu-me a colher entre os dentes e, lentamente, lentamente, deixou escorrer aquela peçonha.

Reviraram-se-me as entranhas, mas eles continuavam a segurar-me e de nada valeu o choro; aquilo era para meu bem, ia crescer e ficar um homenzarrão.

Ernestina, Ed. Escritor, Lx. 2001, p. 145.



(Porcalhão! Desgraçado)

Tomado de febre digo à Marta que espere, que não tenha medo, e corro a buscar a manta das nossas brincadeiras.

Estendo-a no chão.

A minha companheira não faz perguntas, olha indiferente, fica imóvel quando lhe puxo o vestido por cima da cabeça.

Mais roupa não tem.

A minha: camisa, camisola, calções, cuecas, meias, sapatos, demora ridiculamente a tirar.

Estamos em pêlo, deitamo-nos, ela por baixo, eu a cobri-la e, sem saber se o tínhamos visto a animais ou a gente, imitamos o fornicar.

Com a inocência dos cinco anos que ambos temos e um misto de surpresa e excitação, sensíveis ao contacto das peles que se roçam, lambuzando-se com beijos que não sabemos dar.

De repente tudo enegreceu.

Paralisámos ao ouvir a porta fechar e abrir-se de novo em pé-de-vento, minha mãe furiosa a perguntar onde é que eu estava.

Não me deu tempo a responder, porque em duas passadas tinha descoberto o nosso ninho e na sua fúria caiu sobre mim às bofetadas e aos puxões de orelhas, mais uma vez aos gritos de “Porcalhão!” e “Desgraçado!”, que com os anos perderiam o impacto, mas naquele momento ressoavam com a força que eu mais tarde reconheceria ao ler como Adão e Eva tinham sido expulsos do Paraíso.

Ernestina, Ed. Escritor, Lx. 2001, pp. 126-7.



(O dedo de Deus)

Os moradores abandonaram as casas anos atrás, quando a lavoura deixou de compensar.

Tirante a quinta das Arcas a meia encosta, também já despovoada, mas onde por enquanto ainda tratam das oliveiras e dos amendoais, o que eu conheci como searas são hoje matos.

Nos meus tempos de criança a brisa fazia ondular num ritmo hipnótico as ladeiras plantadas de cereal, e não era preciso muita fantasia para imaginar um dedo gigantesco a passar e repassar sobre elas, dando-lhes vida.

O dedo de Deus.

Agora, mais bastos que no passado, os pinheiros estendem-se à toa pelos montes.

Vistas de longe, as suas copas parecem um tapete verde lançado sobre a terra estéril, onde os silvedos, as giestas, as estevas, os carrascos e cem outros arbustos daninhos, crescem tão densos que só as fragas maiores não desapareceram ainda sob eles.

Ernestina, Ed. Escritor, Lx. 2001, p. 11.



(Aleluia)

Chegou a festa.

Nessa noite os meus progenitores devem finalmente ter posto de lado as inibições de que tinham sofrido, e a esperança de daí a pouco irem mudar de vida também terá ajudado; mas o mais certo é que a euforia, e os copos de licor que era costume beber para festejar o santo e aliviar o peso dos comeres, lhes tenham feito esquecer a aberração do incesto.

E como do 10 de Agosto em que se celebra a festa nos Estevais aos 15 de Maio em que nasci em Vila Nova de Gaia vão, mais dia menos dia, os nove meses da regra, a probabilidade é grande que me tenham gerado no arraial de São Lourenço de 1929.

Ernestina, Ed. Escritor, Lx. 2001, p. 105.



(Deus criou o mundo)

Deus criou o mundo em Vila Nova de Gaia, numa tarde quente de Maio em 1930.

E eu, quando uns quatro anos depois comecei a observar conscientemente a Sua criação, não o fiz, como seria de esperar, apenas com os olhos que ele me tinha dado à nascença, mas quase exclusivamente através dum binóculo.

Esse irresistível e constante desejo de querer ver tudo de mais perto foi causa de grandes desesperos familiares, gritarias e alguns tabefes.

Minha mãe era obrigada a puxar às mãos ambas para me desgrudar da janela onde eu, horas imóvel a gozar a agitação do rio e do Porto, corria o risco de ficar raquítico.

Mas se me obrigavam a movimentar-me o perigo era ainda maior, porque poucos passos dava sem ter o aparelho apertado contra os olhos, perdendo-se a conta das vezes que caí por erro de cálculo ou pelo fascínio de ver que, sem dor, conseguia amputar as pernas e fazer com que os pés me saíssem do peito

Ernestina, Ed. Escritor, Lx. 2001, p. 9.


Tomado web: http://ruadaspretas.blogspot.com.es/






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