jueves, 24 de septiembre de 2015

MANUEL GUSMÃO [17.129] Poeta de Portugal


Manuel Gusmão 

(Évora, Portugal 1945) es un escritor portugués que se ha destacado como poeta y ensayista, además ha compartido su pasión por la literatura, mediante su trabajo como traductor y profesor universitario en la Facultad de Letras de la Universidad de Lisboa, concretamente en las áreas de Literatura Portuguesa, Literatura Francesa y Teoría de la Literatura.

Su amor por las letras no solo se demuestra en los hechos, en el oficio mismo de escribir, sino en su preparación profesional, pues se licenció en Filología Románica en la Universidad de Lisboa, y se doctoró con una tesis sobre la Poética de Francis Ponge, de quien hizo traducciones. En 2004 Gusmão ganó el Prémio D. Dinis, de la Fundação Casa de Mateus, que es un reconocimiento que se instituyó en 1980 y que se le da anualmente a una obra de poesía, ensayo o ficción, publicada de preferencia el año anterior al de la entrega del premio.

En 2005 obtuvo el Premio Vergílio Ferreira, el cual fue instituido por la Universidad de Évora con el objetivo de homenajear al escritor que le da nombre y reconocer la obra de un autor de lengua portuguesa que se haya destacado en la narrativa o el ensayo. En 2009 fue acreedor del prémio DST de Literatura, que todos los años enaltece una obra de autor portugués o residente en Portugal. A estos se suma el Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (APE) por una de sus obras más conocidas: “Teatros do Tempo”.

Gusmão es miembro de la Asociación Internacional de Literatura Comparada y fundador de la Asociación Portuguesa de Literatura Comparada. Sus trabajos pueden encontrarse en publicaciones como las revistas O Tempo, Modo e Letras e Artes, Jornal Crítica. Ariane (de la cual fue fundador), Dedalus (de la Asociación Portuguesa de Literatura Comparada) y Vértice (donde fue coordinador editorial).

Obras publicadas

Ensayo y Antologías

A Poesia de Carlos de Oliveira (1981)
A Poesia de Alberto Caeiro (1986)

Poesía

Dois Sois, A Rosa - A Arquitectura do Mundo (1990/2001)
Mapas: o Assombro e a Sombra (1996)
Teatros do Tempo (1994-2000) (2001)
Os Dias Levantados (2002) (libreto para ópera de António Pinho Vargas)
Migrações do Fogo (2004)
Mapas o Assombro a Sombra (2005)
A Terceira Mão (2008)




Y escribiré en el piano 
de las aguas 
las pruebas de que
viviste, de que estuviste vivo  
un día

 Manuel Gusmão 



Revolução Orbital

Revolução orbital: vai-se a rosa transformando 
na coisa múltipla, amante e amada, na acção 
que assim a faz e nos acidentes mínimos – paisagens, 
estações dos dias e das noites, dos anos da história. 
Ondula no cérebro a fronteira que as margens da luz 
desenham. E a rosa é uma hélice que vibra 
no ar que a respirar obriga(s): torção dos pulmões, 
do tronco e do sexo, dos nomes e dos vocativos 
que se respondem: como um coração que deflagra 
a rosa faz do ar que te falta a terra de onde nasces 
e o chão sobre que danças. 

in 'Dois sóis, a Rosa – a Arquitectura do Mundo' 



Canção porque (não) Morres

Este é o último livro, prometia 
como alguém que tivesse esquecido 
que assim sempre tinha sido - aquele 
era o último e depois que alguém viesse 
fechar a porta contra o som do mar. 
- Pagava por jogar no escuro 
e por aqueles ardis já gastos 
com que pensava e não pensava 
enganar a morte branca e vermelha. 
- Ah e não esqueças: - deitar fora a chave 

Canção como não morres 
se é a morte que em ti sobe até à fonte 
do sangue, até à flor do sal queimando 
os dedos; até à boca que por te cantar 
se acende negra; até à copa 
das árvores que distribuem o sol 
sobre o corpo morto do amor 
amante e desamado? 

Ou antes: de que morres, por que morres 
tu, canção já sem voz, já 
sem o canto, 
            - já sem outro assunto 
de momento, me despeço de todos vós- 
quem falou agora? - Que importa quem falou? 
- Que importa? Nada e nonada. E, sim, tudo 
é tudo o que importa, para quem veio 
mandado a que chamasses quem 
tivesse chamado. 

Canção, o teu sopro é quente 
e têm sede os teus ventos, esses animais 
do ar que por mil tubos sopram no corpo-músico 
a verdade que calcinou os amantes que já o veneno 
beijara até à flor do sangue. 
depois, as palavras em que te perderas serão 
cinzas sobre o mar e espuma suja 
entre as rochas. Que atraso ou afecto 
te prende ainda a esta margem 
Por quem esperas tu 
canção ainda 
agora 
que já por todo o céu 
a terra nos esqueceu 

Morresses, agora, canção 
enquanto corres ainda pelo sangue 
de quem escuta - e 
morrerias no fulgor último 
que ao fundo, no horizonte 
da linguagem, 
da própria linguagem 
se afasta já, e abandonando vai 
os seus bairros periféricos, despedindo-se 
da tristeza dos migrantes derradeiros; 
queimando página a 
página 
os últimos barcos. 

in 'Migrações do Fogo' 



Uma Pedra na Infância

Põe uma pedra
uma pedra sobre a infância

Para que de vez se cale essa respiração
contida suspensa no escuro

Põe, digo-te, uma pedra de silêncio sobre
essa infância essa fala ininterrupta essa

falagem que falha e promete e inventa
os sonhos e as promessas o riso sem porquê

Para que de vez se interrompa a esperança esse
mal que não desiste. Escreve, faz o que o ditado dita:

Enterra no silêncio da pedra essa intolerável coisa
que é a infância, as vozes da noite do poço.

Apaga a infância isso que falta sempre à chamada
e para sempre trocou já os desejos e os medos.

Já não vais a tempo, ela enredou sem remédio
as vidas os nomes a tua condenação. Mas vai.

Para que se cale de vez essa respiração que se ri
na cara da morte, nos olhos do enviado de deus

recita o que o ditado ditou: Põe uma pedra sobre
a infância e ouve a era a folhagem que cobrem

o céu em ruínas.

Também então havia uma pedra no canto do quarto
Alio onde a noite começava, era uma pedra e depois
crescia, petrificava-se no seu coração de pedra
dividia-se e eram várias crescendo; ocupando
todo o espaço do sono, do sonho do mundo.
Pesavam no teu peito procuravam-te os olhos
que de pedra ficavam e o grito era uma pedra
que na garganta subia contra a outra pedra.
O próprio ar golpeado era e dividia a voz
pedra contra pedra, o deserto a perder de vista.

Põe uma pedra sobre outra pedra. Inventa uma
outra infância de que possas recordar-te.
Obedeces ao poema e é sem espanto que vês:
nada acontece. Não há

nenhuma voz na voz dos condenados.




ALGUÉM LIA O ECO DE UM ECO

É uma voz. segura e trémula a ouves / e
rigorosa é; e diz em voz alta a litania.
Não sabes bem se é do passado
que vem; ou se do futuro chega
despedindo-se. sabes que não é presente
a luz, a chama ou o luar que nela vibra.
Recordas, porque inventas: Ela é o eco
da invenção de um outro, quando diz

o teu rosto inclinado pelo vento;
a feroz brancura dos teus dentes.
sabes então que feroz é também essa voz 
que de cor diz os versos. E tu escutas
sem conto essa ferocidade que se quebra
e de um para o outro verso estremece:
o triunfo cruel das tuas pernas;
colunas em repouso se anoitece;

A  voz não a ouves agora. Não está aqui.
Mas há uma praia do tempo, uma noite branca
fulgurando entre mundos: e o poema
regressa à impossível presença.
Lês em silêncio; os dedos tacteando
o eco de um eco. Recordas segundo a invenção.
E o poema traz consigo a voz que ele próprio
escreveu: essa voz emprestada
que um dia te inventou para o amor:

a razão enquanto ardia, a única razão.

in «Migrações do Fogo», Na Noite das Imagens
Lisboa: Editorial Caminho, SA,  2004




CODA

Agora ela está no filme dentro do sonho: da esquerda vem
caminhando por entre as aves que no claro céu escrevem
verdes palavras novas e a vão de si mesma separando
para de novo à frente a reunirem e novamente a dividirem.
Como se ela fosse as sílabas separadas do seu nome nascendo:
fotografias sucessivas, algumas já perdidas, ou roubadas.

Quando chega ao fim do ecrã, à direita, o plano muda;
e ela vem agora em sentido contrário escandindo as luzes
do inverno numa rua nocturna dos subúrbios de uma cidade
onde nunca estiveste. Confundes o seu com outros vultos
e não sabes se é ela que foge ou se é ela quem distribui
a ameaça ou a elegância infinita de quem se perdeu.

Com as mãos empurra a fronteira da cena até que aparece
uma praia já por novembro dentro por onde vagarosa vem
mas triste não; rindo de qualquer coisa sem razão e sem som.
Subitamente parece interromper a travessia ao longo do ecrã
e olha para o sonhador que dentro do filme sonha a vida verdadeira,
É então que a luz a extingue e abre ao centro uma flor de fogo.

O plano muda outra vez. Ela reaparece vinda da direita; vem
andante; transporta consigo a luz e a sombra intermitentes; ela 
é a sua própria declinação; ela distribui o fluxo e o refluxo
das imagens do mundo. A luz que ela decompõe e concentra
começa a queimar as margens do filme, as fronteiras do sonho.
Ela volta para trás no verso como se subisse até à nascença do canto. 

in «366 Poemas que falam de Amor»,
Antol. org. por Vasco Graça Moura, 
Lisboa: Quetzal, 2003







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