miércoles, 8 de marzo de 2017

PEDRO MEXIA [20.008]


PEDRO MEXIA
 
Pedro Mexia (Lisboa, Portugal 1972) es un poeta, escritor y crítico literario portugués. Título de abogado en la Universidad Católica. Entre 1998 y 2007 realizó la crítica literaria en el Daily News. Es de suma importancia desde el año 2007 en el diario Público, en la que también escribe una columna semanal. Escribe en la revista mensual de RSI. Participó en programas de comentarios políticos en la televisión ("El eje del mal", SIC-Noticias) y la radio ("gobierno en la sombra", TSF). Ha colaborado regularmente en proyectos de ficción Producciones. Actualmente ejerce de Director interino de la Cinemateca Portuguesa.
 
Ha publicado los libros de poemas:  Duplo Império ( 1999), Em Memória (2000), Avalanche (2001), Eliot e Outras Observações (2003), Vida Oculta (2004), Senhor Fantasma (2007), e duas colectâneas de crónicas, Primeira Pessoa (2006) e Nada de Melancolia (2008) e Menos por Menos – Poemas Escolhidos, Dom Quixote, 2011 e Uma Vez Que Tudo se Perdeu (2015).  
 
 


DENTRO DE LOS LIBROS

Y dentro de los libros
marcas de cuando leemos.
Tickets de autobús, entradas
de cine, anotaciones
con demasiadas
abreviaturas, hojas
que dicen “no olvidar”
y fueron olvidadas.

En esta tarde leí este verso.
La novela en la pág. 89.
Agrupar los eventos
por contigüidad, remisión,
la fecha muy precisa
de estos azares
más importantes
que la biografía.

Pedro Mexia, Menos por menos (Trad. José A. García)




NÚMERO 5

Dei um passo atrás
e vi pela primeira vez
o número da minha porta.
No passeio, olhando
o metal gasto do algarismo
que há vinte e seis anos
sei que existe,
pensei em recuar um pouco mais
para ver todas as coisas que habito
e não compreendo.
Mas três passos depois
do passeio
o trânsito automóvel
impedia a perspectiva
e a sabedoria.




A MINHA ALTURA

Era a minha altura. Um livro
em cima da cabeça marcava
o lugar que um lápis semestralmente
riscava na parede da cozinha.
A única sabedoria dos ossos, crescerem
como a teia sólida de um propósito
e a anatomia mais transparente.
Centímetro a centímetro
espigava o corpo imaginário, essa contabilidade
que era assim, íntima, pictórica,
como uma cena burguesa.
Traço a traço a parede da cozinha
tornou-se rupestre,
a infância uma ternura assustadora.
Esta era a minha altura.
Agora sou tão mais alto e mais pequeno.



PARÁFRASE

Este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos contrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.
A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência
de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.
Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta.



FERRO-VELHO

Terraços inúteis, varandas
das traseiras, arrecadações,
escadas de caracol, marquises
desbotadas, antigas estufas,
barracas, vasos partidos,
paredes abertas, telhas,
ferro-velho, andares vazios,
degraus sem uso, o fosso
do elevador, fechaduras
de portões, gatos, cadeiras,
um sol sem préstimo,
ervas daninhas, um triciclo,
humidade, silêncio, azulejos,
sábado à tarde e o meu corpo.




AUTO-RETRATO COM VERSOS DE CAMÕES

Foi-me tão cedo a luz do dia escura
enquanto me enganava a esperança
que naquilo em que pus tamanho amor
errei todo o discurso de meus anos.

[in Menos por Menos – Poemas Escolhidos, Dom Quixote, 2011]





Nas estantes os livros ficam 
(até se dispersarem ou desfazerem) 
enquanto tudo 
passa. O pó acumula-se 
e depois de limpo 
torna a acumular-se 
no cimo das lombadas. 
Quando a cidade está suja 
(obras, carros, poeiras) 
o pó é mais negro e por vezes 
espesso. Os livros ficam, 
valem mais que tudo, 
mas apesar do amor 
(amor das coisas mudas 
que sussurram) 
e do cuidado doméstico 
fica sempre, em baixo, 
do lado oposto à lombada, 
uma pequena marca negra 
do pó nas páginas. 
A marca faz parte dos livros. 
Estão marcados. Nós também. 

         in "Duplo Império" 




Identidade

A identidade, como a pele, 
renova-se, perde-se de sete 
em sete anos, muda no mesmo 
corpo, torna diferente 
a permanência humana. 
A identidade é a soma 
das intenções, uma foto 
instantânea para um propósito 
imediato que não dura. 
A identidade é um equívoco 
para camuflar o coração. 

         in "Duplo Império" 




Não é Preciso

Não é preciso que a realidade exista 
para acreditarmos nela. Na verdade, 
se não existir tudo é mais luminoso. 
Mundo, evidência submissa e soberana. 

         in "Duplo Império" 




Duplo Império

Atravesso as pontes mas 
(o que é incompreensível) 
não atravesso os rios, 
preso como uma seta 
nos efeitos precários da vontade. 
Apenas tenho esta contemplação 
das copas das árvores 
e dos seus prenúncios celestes, 
mas não chego a desfazer 
as flores brancas e amarelas 
que se desprendem. 
As estações não se conhecem, 
como lhes fora ordenado, 
mas tecem o duplo império 
do amor e da obscuridade. 

         in "Duplo Império" 




Os Significados

Não sei como tudo começou: suponho 
que havia uma figura que depois 
se estilhaçou para formar um puzzle. 
Mas se juntarem todas as peças 
talvez não haja nenhuma figura, e então 
de que origem intacta partiu tudo 
o que depois se quebrou? É impossível 
fazer estilhaços de estilhaços sem uma 
coerência primeira, agora ausente. 
Quando todas as peças se juntam 
estaremos reduzidos ainda a uma peça 
de uma figura maior, ou essa figura 
é uma utopia pragmática, instrumental, 
que permite algum sentido ? 
Ó significados, para vós, na infância, 
tinha um caderno. 
      
        in "Duplo Império" 




Vimos todos os filmes
 
Vimos todos os filmes
mas ainda não sabemos o fim de nenhum,
somos como a luz que desconhece
a própria velocidade.
Os relógios são a decoração doméstica
da angústia, damos corda
aos que precisam e não precisam
sem sabermos nada
da corda e da angústia.
Anos e anos amontoam-se
como nuvens ou tumores benignos
entre as nossas pequenas ciências
e o pressentimento de que
Deus escreve direito e nós
somos as linhas tortas.
 


 
Não me contaram
 
Ninguém morreu em nenhuma
guerra (ou não me contaram).
As estadas em África, acidentais.
 
Na política, estadonovismo,
depois e antes
o que antes e depois havia
 
mais parecido. Ninguém
se bateu em duelo. Nenhum
homossexual notório e decadente.
 
À pergunta “alguém se matou
na família?” a avó
respondeu-me uma vez surpresa
 
e quase severa (mas quem?).
Alguém passou uma noite
na prisão? Só se em alguam
 
precaução alcoólica, em época
de Queima das Fitas.
O meu avô livrou-se
 
fraudulentamente da tropa, mas foi
na I República, por isso
achamos bem e a história
 
Tem graça (“faleceu”
nos editais e pronto). Algumas
cartas foram queimadas
 
com as próprias pistas que
deixavam. Eis uma gaveta
imaginária de espantos.
Episódios ancestrais não se conhecem
mas a família
imediata oferece apenas
 
mitologias pequenas, monstruosidades
vulgares: doenças e dinheiros e adultérios
 
e filhos “fora do matrimónio”
e loucuras mais ou menos
inofensivas. Serve
 
Para drama português, não
para tragédia grega,
para referência privada
 
ou que, em público, mostre, espantosa
a família que não tenho, um
exagero, em resumo,
 
como fazem os poemas à falta
de melhor motivo. Ou então,
não me contaram.
 
Poemas extraídos da revista POESIA SEMPRE , Num. 26, Ano 14, 2007. Edição da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.






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