miércoles, 8 de marzo de 2017

JOÃO RUI DE SOUSA [20.007]


João Rui de Sousa

João Rui de Sousa (Lisboa, 12 de octubre, 1928) es un poeta y ensayista portugués.

Se graduó en Ciencias históricas y filosóficas, en la Facultad de Letras de Lisboa. Desde 1982 y hasta su retiro en 1993, trabajó como  investigador en la Biblioteca Nacional de Lisboa. Fue uno de los fundadores, con António Ramos Rosa, Antonio Carlos (Leal da Silva), José Bento y José de la Tierra, de la revista Cassiopeia, que dirigió en 1955 y donde debutó literariamente con dos poemas y el ensayo "La angustia y Nuestro Tiempo" "A Angústia e o Nosso Tempo". 

Ha colaborado en gran número de periódicos y revistas, nacionales y extranjeros, y ha participado en lecturas de poemas en varios puntos del país. Está representado en más de tres docenas de antologías y volúmenes colectivos. 

Algunas Obras:

Poesía

Circulação (1960)
A Hipérbole na Cidade (1960)
A Habitação dos Dias (1962)
O Fogo Repartido (1983)
Enquanto a Noite, a Folhagem (1991)
Respirar pela Água (1998)
Os Percursos, as Estações (2000)

Ensayo

Fernando Pessoa – Empregado de Escritório (1985)
Este Rio de Quatro Afluentes (1988)
António Ramos Rosa ou o Diálogo com o Universo (1998)




LLAMADA A LA MUSA

Dame tu quiñón de septiembre.
Y yo te daré un lugar que hable.

Por ti robaré las tinieblas – ¡cantos!-
a la mordacidad del destino.
Y diré sombras – cuando sea preciso
abrir portales de claridad.

Diré el sí y el no,
como si todo me fuese indiferente
(aunque no lo sea).

Desenterraré muertos (cabellos, osamentas)
para que al menos por las tardes sobrevivan.
Y atizaré – aun patinando sobre hielo-
el crepitar de la llama, el grito irrebatible
de una más auspiciosa vida.

Dame tu quiñón de septiembre.
Y yo cantaré – incluso en las raíces
más sonámbulas- las aves y las flores, los insectos
y lo innumerable de otros seres o cosas
que no hablan.

João Rui de Sousa, Quarteto para as próximas chuvas (Trad. José A. García Caballero)



Traço Escuro

Quando os dias sangram 
e a parede branca é conspurcada 
com o carvão das brumas, 
com o arquejar de quem, frágil, flutua 
entre as vides do sol e o langor 
das luas, 
apago as luzes todas e o caminho 
torna-se um traço escuro que ressoa. 

           in 'Quarteto para as Próximas Chuvas' 





Ascensão

Beijava-te como se sobe uma escadaria: 
pedra a pedra, do luminoso para o obscuro, 
do mais visível para o mais recôndito 
- até que os lábios fossem 
não o ardor da sede, nem sequer a magia 
da subida, 
mas o tremor que é pétala do êxtase, 
o lento desprender do sol do corpo 
com o feliz quebranto dos meus dedos. 

           in 'Obstinação do Corpo' 





Corpo de Ambiguidade

    posso e não posso ir-me noite fora 
    nestes pilares do medo desta dor 
- é quando os dedos ferem (não se tocam) 
    é quando hesito e coro 

é quando vou não vou neste mergulho 
    em seco a imergir em pobre chão 
   de caos e flor e vinho e confusão 

é quando sem chorar me escondo e choro 

            in 'Corpo Terrestre' 




DINOSSAURO

Gélida, a noite transcrevia em vitrais
as suas gargalhadas.

E assim me agitava no furor do escuro.
Mas não desesperava.

E nascia. E crescia
no silêncio dos campos que era arma.

Dinossauro ao vento, eu resistia
para que ninguém esmagasse a minha alma.

                   (Enquanto a noite, a folhagem)




ESTE AZUL QUE ME CONVIDA

Sou este azul que me convida.

E transcrevo a paz, o sol dos dias.

E também parto. E também ardo.

Depois disso desse suposto eu abreviado,
tão transparente e nítido, mas
tão transitivo
apenas gestos rasos que são cardos,
apenas pedras fundas que são sombras,
pequenos meteoritos que são conchas
de deuses antiqüíssimos e cansados.

                        (Palavra azul e quando)




        ROTEIRO

         Meu jeito visionário — meu astrolábio. 
         Meu ser mirabolante — um alcatruz. 
         De variadas coisas fiz a minha esperança
         e sempre em várias coisas vi a minha cruz.

         Aos padrões que em vários pontos encontrei
         na rota íntima de vestes tropicais
         eu dei as mãos, serenas e intactas,
         as minhas dores mais certas e reais.

         Nos vários sítios que — abismos —
         toldaram minha voz por um olhar,
         eu evitei o perigo e os prejuízos
         à voz feita de calma, meu cantar.

         Aos rasgos que, de outrora, evocados
         foram sempre pelo seu valor,
         eu dei a minha tez de dúvida e de espanto,
         o meu silêncio amargo, o meu calor,

         E aos pontos cardeais que em volta, vacilantes,
         desalentavam já meu ser cativo,
         parei o gesto, roubei o pólo sul da esperança
         como lembrança para um dia altivo.




SOMOS (OU SEREMOS?)

Somos o que fomos noutras eras
e o que seremos longe no futuro
— Música do tempo, música das horas,
relógio incerto, intencional, impuro.
Somos (ou seremos) o que em nós
acorda a vida, os sonhos, outros sonhos
e a última canção — a alegria — que vai
e volta, indecisa, no limiar da esperança.
Por quem nos tomamos, nós, que não sabemos?
Quem nos dói por dentro em súbita alegria?
A espera e os olhos é tudo o que sentimos
desta viagem distante, deste dia.

                  (Circulação)



CLICHÊ

Incluo-me entre as vontades dolorosas
aquelas que decidem sobre o lume
aquelas que deslizam hesitantes
na vaga sensação de tanto estrume.
Em volta do seu pulso mole e débil
por dentro do seu óleo morno e roxo
para além deste limite rombo e ferido
debaixo de um telhado falso ou frouxo.
Sem nada. Sem firmeza, sem sentido,
sem gravata, sem vestido,
sem um ponto qualquer de referência.
Incapaz de ser outro mais fremente
como um cavalo opresso ou mastro fino
passeando ao escuro a indigência.


Depois de amanhã a Primavera!

                                             À Isabel e ao António

A dadivosa mãe que em tudo existe
para além do só remédio só palavra
um cobertor de esperanças para o medo
três girassóis lindíssimos desdobráveis

A boca na boca e as lágrimas
mais azuis de brinquedos e de imensos
lençóis de inventar os dias límpidos
A dadivosa mãe as tardes quentes

Florescer a noite de agasalhos
de corações em pé no destemor
alimentar as órbitas fraternas
de iluminar raízes dança pura

Ó música sem tédio dos cabelos
do teu olhar do cheiro dos reflexos
desta razão solar! Em caule e rama
- ó dadivosa mãe – tudo desperta!

Corpo Terrestre (1972)
In Obra Poética 1960-2000
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2002






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