viernes, 15 de enero de 2016

INÊS LEITÃO [17.904]


Inês Leitão 

Nació el 07 1981 en Lisboa. Se graduó en Estudios Anglo-Americanos, de la Facultad de Artes de la Universidad de Lisboa y un postgrado en empresa de consultoría en el Islam. Tuvo su primera publicación en la revista Casi en 2001. Esto fue seguido por colaboraciones Hacedores de cartas durante el año 2003.


NO DIA EM QUE HATERLY MORREU E OUTROS POEMAS DE INÊS LEITÃO


EN EL DÍA EN QUE MURIÓ HATERLY

Dejamos de poder decir amor con los dedos
porque todo lo que teníamos por tacto
se volvió polvo,
manta vieja,
lista de antiguas falacias dichas por sucias bocas de viejo cebo
y los dedos dejaron de saber decir.

Dejamos de poder decir amor con los labios
porque amputados,
el rostro fue invadido por el líquido rojo
que alimenta el cuerpo y lo abrasa.

Dejamos de poder decir amor con los ojos
porque lo único de nosotros que veía
dejó de ver y
lo que antes era cuerpo ahora es cuadro
lo que antes era luz ahora es hielo
lo que antes era color ahora es dolor.


NO DIA EM QUE HATERLY MORREU

Deixámos de poder dizer amor com os dedos
porque tudo o que tinhamos de tacto
virou pó,
manta velha, 
rol de velhas falácias ditas por bocas sujas de velho engodo,
e os dedos deixaram de saber dizer.

Deixámos de poder dizer amor com os lábios
porque decepados,
o rosto foi invadido pelo líquido vermelho 
que alimenta o corpo e lhe faz as brasas.

Deixámos de poder dizer amor com os olhos
porque o único de nós que via,
deixou de ver, e
o que era antes corpo é agora quadro,
o que era antes luz é agora gelo
o que era antes cor é agora dor.



DEL DOLOR

Matamos las saudades.
No las eliminamos, no las borramos, no las tapamos, ni sabemos reducirlas hasta su inexistencia
– son ellas las que nos reducen a nosotros

solo nos queda matarlas. Matar. Tomar las armas y matar.
No sabemos aligerarlas, no existe pomada ni compromido que nos libre: lo ideal es matar toda la saudade enseguida, no permitir que respire (taparle la boca y apretarle la nariz), ni permitir que ella nos toque: ahogarla o darle con una pala en la cabeza para que se caiga al suelo deshecha y desaparezca ya de nuestros ojos.

(la saudade empieza en nuestros ojos)

Vaya, el cráneo aplastado en el suelo y la ausencia rápida de saudade
– sí, la saudade tiene cráneo; tiene cráneo porque a veces la saudade es persona; y cuando es persona duele más y necesitamos que se muera aún más rápido.



DA DOR

Matamos as saudades. 
Não as eliminamos, não as apagamos, não as tapamos, nem as sabemos reduzir até à sua inexistência
– são elas que  nos reduzem a nós

resta-nos matá-las. Matar. Pegar em armas e matar.
Não sabemos aligeirá-las, não existe pomada nem comprimido que nos liberte: o ideal é matar a saudade toda logo, não permitir que ela respire (tapar-lhe a boca e apertar-lhe o nariz),
nem permitir que ela nos toque: afogá-la ou dar-lhe com uma pá na cabeça para ela cair desfeita no chão e desaparecer-nos  dos olhos imediatamente

(a saudade começa-nos nos olhos)

 A pá, o crânio desfeito no chão e a ausência rápida de saudade
– sim, a saudade tem um crânio; tem um crânio porque às vezes a saudade é pessoa; e quando é pessoa dói mais e precisamos que ela morra mais rápido ainda.



DE LA CASA DEL CUERPO

Debía tener el valor de contarte que hoy soy yo. No eres tú, ni tu cuerpo
en una Lisboa hecha de invierno como nosotros en aquellos días: hoy es mi cuerpo 
lo que llevo aquí dentro
(ha pasado un año)

Intento tener fuerzas para llevar lo que es mío, para un camino nuevo que surgirá cuando abra los ojos
– sí, mi ojos se abrirán y nunca más recordaré
abrir los ojos dentro del agua, el líquido y lo que ella protege

El cuerpo cambiando
meciéndose
creciendo por dentro hasta el día de la aniquilación; es una señal de la cruz que sale por el gesto del pulgar
naciendo de la frente hasta la mandíbula,
cruzando la cara caliente en señal de perdón



DA CASA DO CORPO

Devia ter a coragem para contar-te que hoje sou eu. Não és tu, nem o teu corpo numa Lisboa feita de Inverno como nós naqueles dias: hoje é o meu corpo e o que eu tenho cá dentro
(passou um ano)

Tento ter a força de levar o que é meu, para um caminho novo que surgirá quando abrir os olhos
– sim, os meus olhos vão abrir e nunca mais me vou lembrar
os olhos a abrir dentro de água, o líquido e o que ele protege

O corpo a mudar,
 a mexer-se,
 a crescer por dentro até ao dia da aniquilação; e um sinal da cruz que sai pela indicação do polegar,
a nascer da testa ao queixo,
a cruzar a cara quente em sinal de perdão.

Texto: Inês Leitão
Tradução: Xavier Frias Conde





LEITÃO, Inês.  Se o meu corpo fosse um homem.  Lisboa: Chiado Editora, 2013.  69 p.  14x22 cm.   Ilustrações de Ivo Andrade  ISBN 78-989-51-0752-9 


"SE O MEU CORPO FOSSE UM HOMEM tem de ser lido, sentido, praticado, divulgado.  Desde os Contos do Gin-Tonic, do surrealista  Mário-Henrique de Leiria (1973) que eu não lia algo    | tão inspirador e fascinante (...)                      Luís Arriaga -  jornalista

"Se o corpo poético de Inês Leitão, fosse um homem, e agrafasse a sua boca para que nada pudesse dizer, tudo tudo diria, no inquietante e poético instante das palavras escritas. Os textos de Inês Leitão são cada vez mais a confirmação da sua voz  na literatura contemporânea, e a revelação de um talento impar que só um país sem arte (de cuidar) poderá não reconhecer". Paulo Alexandre e Castro - Professor Universitário


No lugar da árvore, o corpo.

Somos arbustos nus,
nós os dois aqui. deitados.

Os dedos a viverem ao contrário dentro da mão
(nós aqui somos arbustos invejados)

Pernas a ganharem força
braços deformados à laia de tronco de corpo
(nós a sermos folha, nós a sermos casca onde
pequenos bichos constróem o seu lar)

Nós, os bonitos arbustos
viemos os dois
da vagina da mesma árvore.



A cada mulher o seu corpo ou o seu inferno

A cada mulher o seu corpo ou o seu inferno.
O corpo como instrumento.
O corpo como limite do eterno.
O corpo como instrumento e limite do eterno: o
                                       [corpo é o meu inferno].

O teu corpo a girar como roda do mundo
(a minha cabeça a raspar no chão)
A cada mulher o seu corpo.
A cada mulher o seu inferno.

**

Da pertença

A tua biblioteca com os olhos postos em mim desde que entrei na tua sala, os teus livros a dizerem entre si que nunca me tinham visto

(quem é aquela?)

a prenderem a respiração ao meu toque como se tu fosses o seu único digno proprietário e eu 
(uma pequena invasora) 
uma pequena invasora que os agarra docemente com as ponta dos dedos
à laia de carícia; alguém feito de carne, pele, ossos e unhas que lhes abre as folhas para os saber por dentro.


Do Martírio

Explicar ao meu corpo que se podia acalmar e que sobreviveria sem ti se um dia o teu quarto cor de fruta desaparecesse da nossa frente para sempre e os teus olhos nunca tivessem existido
(o medo dos teus olhos a questionarem os meus)









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