lunes, 22 de febrero de 2016

JOAO MOITA [18.149]


João Moita

Nacido en Alpiarça (Portugal), en 1984, es  licenciado en Estudos Portugueses e Lusófonos y mestre en Estudos Comparatistas. 

Ha gestionado la biblioteca de su localidad natal, muy marcada, ésta, por su resistencia antimonárquica y, posteriormente, antifascista. Actualmente reside en São João dos Montes–Alhandra, tierra significada también por la resistencia. Con tres libros, O vento soprado como sangue (2009), Miasmas (2010) y  Fome (Enfermaria 6, 2015), debe considerársele uno de los poetas más interesantes de su generación. 

Está en curso de edición su tesis sobre el erotismo en el contexto de la obra de Vergilio Ferreira. De Antonio Gamoneda, en mayo del actual 2013 (Assírio & Alvim, Lisboa), ha publicado, con selección, traducción  y estudios, una amplia antología títulada Orãçao fría. 


2010
Poema publicado no nº2 da Revista Ítaca



Como um antiquíssimo astro
o seu rosto pende crepuscularmente
mostrando os sinais evidentes
da volúpia e da morosidade.

Um dia, ao passar por ali,
encontrei-o segurando nas mãos
o seu coração gelado.

Vi que era um anjo muito puro e lento,
o seu olhar era um horizonte escuro,
a neve derretia-se debaixo da sua respiração.

Havia a monotonia dos dedos
contando as luas e os meses,
perdendo-se e recomeçando.

Disse: «Aproxima-se o tempo dos pentagramas.
Quero estar preparado para esse exercício
de violentas ciladas.»

Assim rejuvenescem as flores, intensamente belas.
Assim crescem os filhos junto da enseada
e as labaredas do amor incendeiam as sepulturas
e as mitras das deusas claras.

Disse: «És muito bela e o teu corpo dança
onde o horizonte é uma lâmina rasa.
Eu conheço o teu nome.

E eu recebo-te:
abro lanhos na pedra que ofereces,
trabalho nela com os dentes,
insidiosamente.»

As palavras estão sentadas em arcos de fogo,
pulsam.
Se o poema o visitar,
ele desaloja as palavras
e senta-se calado,

ardendo.

Disse: «Escrevo,
caminho para um profundo silêncio.
Essa eloquência.

Escrevo para incendiar a memória.
Acreditar que as mãos criam
a fragilidade do corpo,
que existem porque moldam
a intranquilidade da paisagem.

Um dia os deuses regressarão aos moinhos,
absortos nos seus desígnios.
Observarão as mós girar
como se a solidão nunca os visitasse.
Não convocaria agora as suas navalhas.

Eu estou aqui.
Soergo-me e caio.
À entrada das cidades,
serei todos os pórticos em fogo.»

Os homens são assim.
Inventam uma luz para nela mergulhar
a sua escuridão.

Disse-lhe: «Virás por essa estrada.
Tocarás a brisa com os teus dedos
levemente apagados
como se dissessem:
Procura-me antes dos meus passos
porque depois deles já não estarei
e neles estou apenas de passagem.

O céu é uma primavera transfigurada:
as flores em seus abismos.

Eis os instrumentos do teu labor.

E eu vou assim,
o coração sem timbales,
os pés feridos.

Chegou a hora do silêncio.
As palavras repousam agora nas margens,
são o sustento de uma ausência.

É por isso que te peço,
dá-me o fogo tripartido do poema,
a sua fulguração.
Como se de chama em chama
a tua face se tornasse mais habitável
para os sinos da manhã.
Como se ensinasses a juntar o silêncio,
peça a peça,
até se escutar essa argêntea fissura que perpassa
as palavras.

Resumem-se a isto os ciclos da fertilidade,
a estas quatro luas incendiadas.

Um cão corre pelas vinhas.
E nunca aprendi
a não me demorar sobre o fogo.»



Divina Música - Antologia

Há uma voz encantada que me chama mas eu venho
pela chacina e pela vista abrasada a grisu.
Há uma voz encantada e a beleza é ainda bela
e sem necessidade de explicação
mas eu venho pelos espasmos e
pelas silhuetas vulcânicas
que vogam iradas e imateriais.
Há uma voz que encanto a golpes e blasfémias
e que transluz nocturna,
voz-napalm que estendo como corda.
Eu venho açular os maxilares contra a palavra
a palavra com sangue
a palavra sangue
dita
atirada com sangue e espasmos
como coração exangue
com o sangue sufocando a voz
e a voz encantando ainda já sem voz
onde eu estou como a descoberto para cantar por baixo.



O vento soprado como sangue

X

Não é como se a mão hesitasse no gesto fundador.
O movimento espera que um astro se incendeie
em todos os tendões
para que nenhuma palavra seja o frio nexo da loucura
ou o vento soprado como sangue.
Uma pedra sobre a boca pode ser o único sustento
para essa fome.
Mas a mão que escreve avança como faca
arrancando à garganta o seu êxtase carbonizado.
A violência é a religião de Deus.


XVI

De cada vez que um de nós morre
há uma faca apontada às jugulares:
o silêncio como mantimento.

A morte equilibra-se em nossos corações
com o deslumbramento.

Há-de haver um corpo que transite de alma em alma
e em cujos olhos se alumie a força brutal da mesma vida.
Há-de haver uma voz desvairada que se derrame como napalm
sobre a noite que nos envolve.

Por agora não sei como tocar a distância de onde nos falam.






João Moita, Miasmas, Cosmorama, 2010.


Miasmas

I

É uma voz de veias acutilantes:

devolverei ao silêncio a sua mais sórdida cadência.



IX

A ferida põe o corpo em perspectiva.
Eu levanto-me triunfal para o crânio do dia
onde mãos divinas remexem
inquinando o culto.
A efemeridade dura.



X

Deus e Deus sabem que me agarro furiosamente,
que amo o fogo e o fogo atado à solidão.
Olho o mundo com os globos sob os cascos maduros.
Hoje sou uma revelação metódica:
traio a disciplina.
Canto com o bafo de todas as disposições.
Vi sobre as córneas a besta erguida:
as garras infectadas na pele de Deus,
o caldo rutilando.
Ambos sabiam:
era a Grande Obra.
E eu atava-me aos elementos.
Sublimava-me.
Era na terra uma ocultação.
Deus e Deus amavam-me furiosamente
e eu sabia que me agarrava ao fogo e ao fogo de passagem.
Os pés com que corro são cascos que florescem
sobre os olhos.
A beleza é uma hemorragia que bebo
amargamente.
Hoje canto com uma disposição muda.



XIV

Criarei liricamente a combustão de que
a luz é só a transparência mais visível :
por dentro há carne revolvida.
Fez-se uma sangria nesta fábula -
o  poema sacrifica todos os objectos
à sua curva anémica.
Não usarei outro artefacto que as escórias
desta metalurgia vascular.
A sedição é aqui ao meio.
O poema à volta.
Um grito eleva o hálito da distinção:
se ele queima é por baixo da linguagem.



XIX

A minha veia poética é alimentada a seringas
do alto da contrição.
Excita-me o que me definha.
O meu coração encolhe se usado como símbolo:
esta é a parábola da compensação.
O sujeito lírico afila-se em sua índole jazente,
verte uma veia,
aguarda do alto o alimento,
ergue-se nas patas –
estamos no domínio da moralidade.
Eu pronuncio-me apenas sobre o que é do domínio da agressão,
da beleza escorchada,
do bafo intravenoso.
Venho para anunciar que tudo contribui
para a hipóstase do recomeço.



XXX

Aqui sou o que respiga o sangue.
É um estímulo nocturno,
a ínvia música nocturna dos meus dedos,
a água música nocturna do meu sangue.
Está uma paisagem deslumbrante retorcida pela água,
o rosto em chaga,
as mãos entradas na contenção.



XXXII

Confio-me às minhas transgressões.
Sempre que me afasto dos seus desígnios 
a  situação fica oh tão frágil.






in Fome, Lisboa, Enfermaria 6, 2015: 


O mundo é a tua vigília.
Levas milénios acordado,
velando a tua esperança.
Velas, teus acólitos seguram
as tuas pálpebras.
Esperas o impossível:
que se erga da terra um rumor que embale.

*

À força de êxtases,
a fé podou o amor.

Quando veio o desejo,
brincámos com a fome dos corações.

*

A descrença celebra o seu apóstata,
reclama o seu arado:

chegará o tempo da sega,
mas cultive-se primeiro o amor,
essa deformação.
                           Se espigar,
haverá fome por mantimento
e uma colheita tardia
para a distração.

*

Não escrevia para não roubar tempo à leitura: aprendia a humildade. Agora escrevo, aprendo a humilhar-me.

*

Se falham o primeiro voo,
as aves não chegam a voar.
Delas não se pode dizer
que tinham o voo por condição.
Inata só a altura do ninho
e a vertigem do solo.
O resto é conquista das asas.

*

Uma consciência tranquila dorme de noite, mas de dia é uma insónia insuportável.

*

Os mastins dormiram esta noite
junto ao leito do nosso amor.
Partiram antes da alba
para paragens menos desoladas
com as marcas dos nossos dentes
sobre o dorso.

*

Fiquei em silêncio até já ter dito tudo
e só depois me ergui da fogueira-

Tive de queimar a pele para ferver o sangue.









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