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sábado, 29 de octubre de 2016

AMOSSE MUCAVELE [19.408]


Amosse Mucavele

(Maputo, Mozambique, 1987) Periodista cultural y poeta, director del proyecto de divulgación literaria Esculpindo a Palavra com a Lingua, jefe de redacción de Literatas-Revista de Literatura moçambicana e lusófona y miembro del consejo editorial de la revista Mallarmagens (Brasil). Miembro de la Academia de Letras de Teófilo Otoni-Minas Gerais y de la International Writer Association (IWA-Ohio, EE.UU.). Publica sus textos en diversas revistas del mundo lusófono. Ha representado a Mozambique en las primeras Raias Poéticas de Vila Nova de Famalicão (Portugal). Antologista de A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua, que reúne a poetas que escriben en portugués desde Brasil, Mozambique, Macao, Portugal, Cabo Verde, Angola, Finlandia, Timor Oriental, Guinea-Bissau, Santo Tomé y Príncipe, México y España. Es el autor del libro que este año edita el Festival de Poesía de Córdoba, la edición bilingüe Geografias do olhar – Geografías de la mirada. [Festival de Poesía de Córdoba 2016]

Amosse Eugenio Mucavele nasceu aos 8 de julho de 1987 em Maputo, Moçambique. Membro fundador do Movimento Literário Kuphaluxa, sonha em ser poeta, cronista e contador de sonhos. Faz parte da equipe editorial da Revista Literatas - Revista de literatura moçambicana e lusófona, colabora no Pavilhão Literário Singrando Horizontes – Academia de Letras do Paraná, ricardoriso.blogspot.com, Jornal Coruja (Cida Sepúlveda). organizou a antologia da nova poesia moçambicana publicada na Revista Zunái (Claudio Daniel), tem poemas publicados na Revista Eutomia e Linguística da Universidade Federal de Pernambuco, e em outros blogs. É membro Correspondente da Academia de letras Teófilo Otoni, Minas Gerais.



Guerra Popular

A cidade é um inventário de angústias
música cega
um eco que se fecha em silêncio
na veloz saudação dos xapas



Guerra popular

La ciudad es un inventario de angustias
música ciega
un eco que se cierra en silencio
en el veloz saludo de las combis







Magumba

Se tu remas e eu remo
eu me remo rumo a ti
é no mar onde desnorteia-se a vítima



Magumba

Si vos remás y yo remo
yo me remo rumbo a vos
es en el mar donde se desorienta la víctima






Canção do Pescador

Tenho muito mar ‒ o rumo
onde sílaba a sílaba, remo
os dias todos
como uma pedra na água
encosto o ouvido sobre o barco
oiço
uma oração natural do anzol

(pela boca morre o peixe)


Canción del pescador

Tengo mucho mar: el rumbo
donde sílaba a sílaba, remo
los días todos
como una piedra en el agua
apoyo el olvido sobre el barco
oigo
una oración natural del anzuelo

(el pez por la boca muere)






Canção do Pescador again

Ouvi dizer que no mar
o peixe tenta conservar tudo que lhe resta
‒a palavra‒
o pescador sobre o barco
desperta a aliança
que se estende em torno do mar – o Horizonte



Canción del pescador again

Oí decir que en el mar
el pez busca conservar todo lo que le resta
‒la palabra‒
el pescador sobre el barco
despierta la alianza
que se extiende en torno al mar: el Horizonte

(De Geografias do olhar ‒ Geografías de la mirada. Traducción de Gastón Sironi.)





ARQUITECTO

É como se o futuro fosse a profissão dos sonhos
É como se a régua que traça a génese da cidade. fosse a meretriz que se vende na esquina
Na
 Mesma
 Esquina onde o profissional sonhador ergue o mastro
dos seus prazeres, onde espora os seus sentimentos na vagem de uma flor adormecida pelo
vermelho aroma ( a língua lambe, lambe a primavera do novo oeste)……um beijo no caule
da planta que cobre o passado,….Um abraço quente à altura de um aranha céu namora o
presente.
Onde as margens traçadas na folha em branco tornam-se reais, os números, as larguras
ganham outros contornos todavia aquilo que era futuro ficou reduzido a um presente seja
de natal ou de aniversário. Quando o profissional faz a entrega das chaves ao homem. O
sonho também abre o seu horizonte.assim aprendi a escutar o orgasmo da minha
criatividade (este poder de tornar algo intangível em residência do ser humano) e descobri
que para me masturbar não preciso ir longe, basta ter as chaves dos compartimentos da
consciência e dentro das suas quatro paredes encotrar-me-ei com o sonho .




MARTELAMENTO DO RIO

Rio do silêncio das ondas do rio. Onde suas águas guardadas em gavetas aguardam pela
hora do discurso. O rio chora pelo silencioso curso da sua voz em movimento rectilíneo.
Escrito com a tinta selvagem e o dolorido trilho em paralelo tracejado em pleno
ziguezaguear das suas assombrosas margens
Aberta a boca para o discurso: a voz do rio seca torna-se num eterno guardador de
silêncios.
Um homem,
Uma canoa , 2 linhas paralelas
 O verso do olfacto do crocodilo descreve o perfil da presa
No
 Silencioso trilho do rio
 Uma cova
A mesma cova ardia em plena hora do discurso vazio
 No meio do rio uma pá continua a uma velocidade da
luz com o seu curso vertical. O redemoinho pesca a água de uma forma circular.





de A Posse do(s) Sonho(s) ou o Prefácio de uma Galáxia Interior.

Mel amargo 
      
             Para Mbate Pedro 

As abelhas fabricam o seu zumbido
 ao anoitecer dos dias
e ao clarear da noite 
vendem a dor na matriz 
do som amargo que as nossas bocas chupam

§

Eis tudo História  

           para Sangari Okapi 

Preso a minha vinda
nas algemas da tua chegada
onde derretem granizos na porta
dos soluços obsoletos do tempo

§

Viagem  
(com imagens de Lisboa)
          
               para Dilía Fraguito e Mito Elias 

nas crostas do mar
brotam lagos voadores
com plumas de papagaios suburbanos
a sobrevoar nos tímpanos da cidade 
que  sangra  desejos de amar os emigrantes

§

Depois da Ditadura Militar 
                                                                                      
            para F. Gullar 

O anjo é grave 
agora. 
Começo a esperar a morte.* 

como quem procura mostrar o silêncio aos ouvidos rotos desta noite
que escurece as paredes da luz feita de pólvora.
galgo a estirpe da brisa nocturna nas linhas da terrível extensão da dor
em plena castração da casa. E no meio dos escombros colho palavras de estacas
 para com elas disseminar lâmpadas do ajustamento das ruínas humilhadas
pelo magnífico derrubo catastrófico do pó do martelo

§

Outros poemas

Guerra Popular

A cidade é um inventário de angústias
uma música cega
um eco que se fecha em silêncio
Na veloz saudação dos chapas

§

Bairro Magude

Regresso ao avesso
com luzes apagadas
faço da escuridão a condição pela qual vivo
arrasto o silêncio para onde o sonho se abre em charco

§

Subúrbio

Nas margens da cidade
as acácias são como almas adiadas a arder
na melancólica procura de um sonho
para enxugar os pés
e sei que nenhum peão restituirá os buracos

§

Macaneta

Nessa praia tínhamos perdido o caminho para o mar
o resto da terra caiu em lágrimas
num rio calado pelo tempo
feitos de náufragos
(choramos com a bússola na mão)

§

Inhaca

Haverá ainda este sol
a murmurar na água
se a fome dos barcos alcançar a terra
Haverá esta tamanha glória
no corpo insaciável dos remos
que sugam o mar todo
se com os olhos continua(r)mos a desfolhar o distância?

§

Na maré do meu diário – o incerto
reescrevo com os olhos
a fonte do imaginário desta cidade
sem rumo, anoiteço no corpo do poema
onde voa o sol em toda sua glória

§

Eu vi o sol em toda sua glória
a procura de refúgio longe do florir da noite
sem nome, os barcos vacilam geometricamente
no corpo húmido de silêncio
(tal como as estrelas a apodrecer no charco)



MEDO

Ao Ademir Assunção

(alavanco a minha memória na hóstia do tempo, e atiro os atómos do meu apetite para silênciar a atmosfera da minha insegurança, percorro vezes sem conta no intímo das estradas que não dormem na cegueira desta cidade nua de árvores e pedras.enxergo o meu projecto adulterado pela febre da lua cheia de insónia.




TESÃO

Á Suraya Tamele

Faço de mim um depósito de orgasmos sem idades, uma cidade que se ergue no átrio do   tempo,traço na parede de um sentimento por uma mulher. uma linha horizontal que se alonga até ao rio do meu prazer.encontro nos afluentes do poço que cresce em posição vertical, o túnel para a minha bem adocicada ejaculação.




ENERGIA SOLAR

Ao Abreu Paxe

As lampâdas eoliográficas acendem o medo do sol no chão torto pelo sopro das ventoinhas voadoras.(isso)enquanto ardem montanhas pela força do curto circuito da energia das nuvens, que por infindáveis vezes tentam sem sucesso parar o revólver do vento. A (o) pá continua a atar circunferências do ar na geografia do espaço desértico, onde a radiação solar semea-se em épocas de seca, cujo o regime predominante é odarotação de culturas , guarda-se em ruínas da gramática existencialista de palavras como: congelador,televisão,geradore colhe-se no vociferar agudo da noite, e nós com a caneta olhamos o distante florescer do fogo da pedra que cintila nas ondulações do óasis, e. aqui não há espaço vazio para frotas de água turva.




NEW YORK

 Ao Richard Bona


Há cidades onde as noites roubam barcos pendurados nas árvores dos turistas.



ATRAVESSAR O SILÊNCIO

Ao Claudio Daniel


A memória é um inferno provisório onde os nossos dias visitam constantemente . na penumbra de um mar de esquecimento ladeado de flores que brilham ao som do silêncio.e ao entardecer.a neve embarca no murmúrio da água que bate nas pálpebras das pedras na solene viagem do nada.e para além do sal derramado nas margens, não via-se mais nada, pois o cinzento abacanhou a melancolia do céu que outrora fora azul. e difícil é, descortinar este lado invisível da distância que nos assiste .A ilha que nos espera é feita de papel que baloiça livremente nos olhos do mar-mil e uma visões espalhadas no útero do passado ,uma música embalada de presentes toca incansavelmente na febre do navio-onde é minha casa?

E no colo do futuro procuraremos acender as nossas identidades com o anzol que perdeu-se nas ondas da tempestade.




CABO VERDE

Ao Corsino Fortes

Uma PRAIA estende-se nos ramos de uma seringa que ondula nas veias encharcadas de mel, sob a alçada de um corpo derretendo-se na ressaca de um vulcão.o mar corre as pressas em rebuliço levando consigo na bagagem as cinzas do FOGOarrancado dos edificíos do ar que pé(lo) lago propociona-nos uma BOAVISTA.de umjardim que não é jardim, que das pedras planta montanhas como uma túlipa diante de um paraíso de rosas.
E quando a lâmina entra em cena, a montanha recorta-se em graus de Ilhas. E a mesma lâmina quando conquista o espaço do mar, é fenomenal o quão as gaivotas com as suas asas de vénus. Sobrevoam extraordinariamente a paisagem totalmente coberta de nuvens de SAL. E triste é a BRAVA primavera do desassossego que assola e corta o Arquipélago em pedaços de terra que trazem noticias do mar.



LEMBRANÇA

Ao Rui Knopfil

                                         ڻ

Havia uma pétala vermelha que crescia no fumo de um cigarro. onde um homem puxava incansavelmente na esperança de querer vencer o medo que se instalava na porta dos seus devaneios                      E
                                                                            
Dentro da casa onde os sonhos
eram                   

Guardiões.  

Havia uma pedra encostada à janela onde sussurrava nos ouvidos de Inhambane (quando lembra-se de alguém de olhos abertos deve-se sonhar de boca fechada).                Mas 

Ninguém deu ouvidos ao sussurro da pedra. Encostado a inocência da pedra um sujeito levantou a mão no meio da multidão que pescava predicados e outros silêncios na sala da casa. (Eu quero aprender a doutrina das cores que se manifestam nas pedras).
                                                       
                                                          ڥڦ

A pincel a saudade relampeja no arquipélago da insónia do meu poema (quando durmo sinto a sensação de acordar no terceiro dia, e quando morro passa-me pela cabeça a ideia de acordar no anoitecer das manhãs)

                                                              ڥ  

Na corda da lembrança há um mar que deságua os incensos das suas ilhas, há uma cegueira que se assiste o suicídio do arquipélago na insónia dos mangais.

Há uma     L
                    Á
                         G        
                              R      
                                           I       
                                                    M           
                                                            A                                                                      
que cai. 

nos solavancos das ondas  que ondulam na sepultura onde jaz a flor murcha de abandono.





.

viernes, 11 de diciembre de 2015

SEBASTIÃO ALBA [17.739] Poeta de Mozambique


SEBASTIÃO ALBA

(1940-2000)
Sebastião Alba, seudónimo de Dinis Albano Carneiro Gonçalves, nace en la bella ciudad de Braga, noroeste de Portugal, el 11 de marzo de 1940. En 1949, junto a su familia, emigra a Mozambique, país en el que vivirá durante 35 años y donde ejercerá de profesor, periodista e incluso político. En 1965 publica Poesías, su primer libro, tras el que siguen O ritmo do presságio (1974) y A noite dividida (1982). Desengañado con la situación política de Mozambique, en 1983 regresa a su ciudad natal, iniciando una vida de auténtica bohemia y voluntario vagabundaje, durmiendo en estaciones de autobuses, pensiones miserables o casas de amigos. La poesía de Alba, al igual que su vida, es un elogio y una reivindicación de la libertad, de la libertad de la palabra poética: la originalidad de sus poemas radica en un feliz equilibrio entre la rigurosa sobriedad de su estructura y el impulso musical, telúrico e inefable del que nacen; en la búsqueda lograda de una palabra limpia, despojada de barreras ideológicas o sociales, nueva y primitiva a la vez, sin miedo a los abismos. 

Tras publicar en 1996 su poesía completa en la editorial lisboeta Assírio & Alvim, el 14 de octubre de 2000, a las siete de la mañana, en Braga y tras una de sus frecuentes borracheras, Sebastião Alba es atropellado, falleciendo en el acto; poco antes de morir, y a modo de premonición, Alba le había entregado un papel a su amigo Vergílio Alberto Vieira, también escritor, en el que le decía: “si encuentran muerto a tu hermano Dinis, el expolio es fácil de verificar: dos zapatos, la ropa sobre el cuerpo y algunos papeles que la policía no entenderá”; tratemos de apreciar este ramillete de poemas, cuya traducción es de mi autoría y que, hasta donde llegan mis investigaciones, supone la primera aproximación a la poesía de Sebastião Alba en lengua castellana.
 
[Escrito en Sólo Digital Turia por Miguel Ángel Manzanas]



NADIE AMOR MÍO
 
Nadie amor mío
Nadie conoce el sol como nosotros
Pueden utilizarlo en los espejos
borrar con él
los barcos de papel de nuestros lagos
lo pueden obligar a detenerse
a la entrada de las casas más bajas
pueden hacer incluso
que la noche gravite
del mismo lado hoy
Pero nadie amor mío
nadie conoce el sol como nosotros
Hasta que el sol degüelle
el horizonte en el que uno por uno
nos recuestan
vendándonos los ojos.
 
 
EL LÍMITE DIÁFANO
 
Me muevo en los bastidores de la poesía,
y me ruborizo si la escucho levemente.
Pero el pan de cada día
por la noche está consumido,
y la siguiente alborada
baña sus escorias.
¡Palco apenas el de mi muerte,
si fuese en la cama!,
con su aseo sin derramamiento…
El lado del que duermo
es un límite diáfano:
allí los versos espigan.
Eso me basta. Despierto
antes de que la mies quede madura
y en la extensión planeen,
de Van Gogh, los cuervos.
 
 
SEGURO DE QUE VUELVES, CANCIÓN
 
Seguro de que vuelves, canción,
a incierta hora,
espero, como quien vive
solo, la visita.
 
Sé, por señales y ángeles y desviados,
que brotas de los sueños desolados
en flores en el suelo.
 
Apenas flores, ni siquiera nimbos en la solapa.
Flores para la mesa,
con el olor de la certeza
de agua, vino y pan.
 
Apenas flores y tú,
oh mi amor sin nombre,
y nuestro doble hambre
de un niño desnudo.
 
 
COMO LOS OTROS
 
Como los otros discípulo de la noche
frente a su cuadro negro que es
exterior a la música desnudo el reflejo
soy uno y deslustrado
 
Me doy las manos en el estrecho
pasaje de los días
por el café de la ciudad adoptiva
los pasos discordando
incluso entre sí
 
Las cosas son su morada
y hay entre mí y mí un oscuro limbo
pero es en esa disyunción el istmo de la poesía
con sus grutas sinfónicas
en el mar.
 
 
NECESITO CUALQUIER OBJETO
 
Necesito cualquier objeto de los tuyos, una cosa de la que ya te puedas deshacer, pero que haya sido tuya, para llevar conmigo, en estos días.
No recuerdo si te conté que el escritor norteamericano Ernest Hemmingway andaba siempre con una pata de conejo en el bolsillo. Los antepasados de tu padre, los míos, eran magos, brujos, fetichistas.
Déjalo ahí en la puerta, he de verlo, querida.
Vendré siempre con una carta para ti. Cuando no venga, será porque las campanas de Braga me estaban ensordeciendo, y fui a dar una vuelta.
Toma aquí el rocío y la rosa, amor mío.
 
 
NO SOY ANTERIOR A LA ELECCIÓN
 
No soy anterior a la elección
o nexo del oficio
Nada en mí comenzó por un acorde
Escribo con saliva
y el hollín de la noche
en medio del mobiliario
indesviable
atento a la efusión
de la niebla en la sala.
 
 
DEJA QUE ENTREN EN EL POEMA
 
     Una palabra que está siempre en la boca se convierte en baba.
         Proverbio burundés
 
Deja que entren en el poema
algunos clichés.
 
Sometidos a la experiencia inefable,
su carga (¿eléctrica?)
desaparecerá.
 
No hay una fosa común para las palabras
decaídas,
un diccionario en el infierno;
 
deja apenas que afloren
a la claridad,
y nada les insufles. Mira:
 
no soportan la belleza
que las circunda, se abisman
en su ridículo.
 
 
COMO SI EL MAR
 
Quiero la muerte sin un defecto.
Sin planos blancos.
Sin que luces minúsculas se apaguen
dentro de los ruidos.
Tampoco la quiero providencial,
con un ángel vengador y secretísimo
al fin posado.
Ninguna mitología. Ninguna
complacencia poética. Del tipo: como si el mar
me soplase en los oídos… etc.
Sino súbita y civil,
con reparticiones abiertas,
comercio, la luz graduada
en las altas paredes
de un buen día sonoro.
 
 
ÚLTIMO POEMA

A Jorge Viegas
 
En estos lugares desguarnecidos
y en lo alto limpios en el aire
como las bocas de los túmulos
¿de qué nos sirve ya pulir más símbolos? 
 
¿De qué nos sirve ya en los tejados
acanalar las aguas de gritos
y con ellos barrer el cielo
(o con los haces de luar que devolvemos)?
 
¿Es o no es el último vuelo
bíblico de la paloma?
 
Que sin horizonte esperamos
en nuestro arca donde hace ya milenios se acumulan
las ramas podridas de la esperanza.
 
Escrito en Sólo Digital Turia por Miguel Ángel Manzanas





NINGUÉM MEU AMOR

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar 
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.

 

NÃO SOU ANTERIOR A ESCOLHA

Não sou anterior à escolha
ou nexo do ofício
Nada em mim começou por um acorde
Escrevo com saliva
e a fuligem da noite
no meio de mobília
inarredável
atento à efusão
da névoa na sala.

 

A UM FILHO MORTO

Ontem a comoção foi da espessura dum susto
duma árvore correndo
vertiginosamente para dentro do desastre

E já não choramos. Passamos
sem que o mais acurado apelo
nos decida

Nas camisas
teu monograma desanlaça-se.
Tua mão vê-o nos céus nocturnos
sabe que há uma ígnea
chave algures

Minha tristeza não tem expressão visível
como quando a chuva cessa
sobre a dádiva fugaz do nosso sangue
que hoje embebe a terra

É tal a ordem em nós
que um odor a bafio sai de nossas bocas
e uma teia de aranha interrompe o olhar
que te envolveu em vão.

 

O LIMITE DIÁFANO

Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.
Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame...
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí os versos espigam.
Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos.

 

HÁ POETAS COM MUSA

Há poetas com musa. Muitos.
Eu, neste jardim do Éden,
a cargo do município,
onde um velho destece a sua vida
e, baixando o olhar,
ainda lhe afaga a trama,
quando a poesia se afoita,
amuo
na agrura de, ao acordar,
tê-la sonhado.

 

GOSTO DOS AMIGOS

Gosto dos amigos
Que modelam a vida
Sem interferir muito;
Os que apenas circulam
No hálito da fala
E apõem, de leve,
Um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
Entre quem são
E quem eles me parecem,
O meu agrado inclina-se
Para o mais reconciliado,
Ao acordar,
Com a sua última fraqueza;
O que menos se preside à vida
E, à nossa, preside
Deixando que o consuma
O núcleo incandescente
Dum silêncio votivo
De que um fumo de incenso
Nos liberta.

 

EPÍLOGO

Fui
hóspede desta mansão
na encruzilhada
dos meus sentidos.

O verso apenas é,
transversal e findo,
o poleiro evocativo
da ave do meu canto.

Essa ave em que o Outono
se perfila
e, cada vez mais exígua
no rumo e nas vigílias
do seu bando,
de súbito, espirala
até sumir-se
num país imaginário.



PRAIA

Entre dois domingos
a cidade oculta-nos
a lisa permanência do vento
e ele rectifica umaq duna
Mas já a luz elide
nossas olheiras do asfalto
velozes véus de areia descobrem
pequenos sarcófagos de conchas
Refugiamo-nos
Mortal só a distância
de nem um indício no mar.

 

AS CASAS CONSTROEM-SE DE SOMBRAS

As casas constroem-se de sombra 
quatro sombras ao alto 
longe da esfinge dos astros

Falamos das cidades 
dos homens que de tão sós 
as despovoam 
Das casas nunca 
Só as casas solitárias têm história

Giram na noite presas 
à face da terra

E vede 
a plasticidade das casas 
ao sol 
a amabilidade das casas 
à porta 
a incomunicabilidade das casas 
sob os bombardeios.

 

CERTO DE QUE VOLTAS, CANÇÃO

Certo de que voltas, canção, 
a incerta hora,
espero como quem mora
só, a visitação.

Sei, por sinais e anjos e desviados,
que rebentas dos sonhos desolados 
em flores no chão.

Apenas flores, nem nimbos na lapela.
Flores para a mesa,
com o odor da certeza
de água, vinho e pão.

Apenas flores e tu,
ó meu amor sem nome,
e a nossa dupla fome
dum menino nu.

 


SEBASTIÃO ALBA
(1940-2000)
 
Dinis Albano Carneiro Gonçalves, cujo pseudónimo é Sebastião Alba (Braga, 11 de Março de 1940 - 14 de Outubro de 2000), é um ilustre escritor nacionalizado moçambicano. Pertence à jovem vaga de autores moçambicanos que vingam na literatura lusófona.
 
Nasceu em Braga, onde viveu durante anos. Radicou-se, juntamente com a sua família, em 1950, em terras moçambicanas e só voltou a Portugal em 1984, transladando-se novamente para a «Cidade dos Arcebispos», Braga. Mas foi em Moçambique que se formou em jornalismo, e leccionou em várias escolas, e contraiu matrimônio com uma nativa.
 
Publicou, em 1965, Poesias, inspirado na sua própria biografia. Um dos seus primeiros poemas foi Eu, a canção. Os seus três livros colocaram-no numa posição cimeira no ambiente cultural bracarense.
 
Faleceu com 60 anos, atropelado numa rodovia. deixa um bilhete dirigido ao irmão: «Se um dia encontrarem o teu irmão Dinis, o espólio será fácil de verificar: dois sapatos, a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá»
 
Poesias, Quelimane, Edição do Autor, 1965; O Ritmo do Presságio, Maputo, Livraria Académica, 1974; O Ritmo do Presságio, Lisboa, Edições 70, 1981; A Noite Dividida, Lisboa, Edições 70, 1982; A Noite Dividida,(O Ritmo do Presságio / A Noite Dividida / O Limite Diáfano), Lisboa, Assírio e Alvim, 1996; Uma Pedra Ao Lado Da Evidência, (Antologia: O Ritmo do Presságio / A Noite Dividida / O Limite Diáfano + inédito), Porto, Campo das Letras, 2000; Albas, Quasi Edições, 2003