Mostrando entradas con la etiqueta SANTO-TOME-Y-PRINCIPE. Mostrar todas las entradas
Mostrando entradas con la etiqueta SANTO-TOME-Y-PRINCIPE. Mostrar todas las entradas

jueves, 18 de junio de 2015

ALDA DO ESPÍRITO SANTO [16.299] Poeta de Santo Tomé y Príncipe


Alda do Espírito Santo

Alda Neves da Graça do Espírito Santo, (Santo Tomé, Santo Tomé y Príncipe, 30 de abril de 1926 – Luanda, Angola, 9 de marzo de 2010), conocida como Alda do Espírito Santo, fue una política y poeta en idioma portugués.

Desde la independencia del país de Portugal en 1975, ejerció altos cargos en el gobierno, incluido el Ministerio de Educación y Cultura, el de Información y Cultura, Presidenta de la Asamblea Nacional de Santo Tomé y Príncipe, así como Secretaria General de la Unión Nacional de Escritores y Artistas de Santo Tomé y Príncipe.



Poemas de Alda do Espírito Santo

Selección, traducción y presentación de Olga Sánchez Guevara
Desde mediados del siglo XVI, las islas africanas de Santo Tomé y Príncipe fueron colonias portuguesas. A fines de la década de 1950, cuando en otras naciones africanas también surgían movimientos independentistas, un pequeño grupo de saotomenses formó el Movimiento para la Liberación de Santo Tomé y Príncipe (MLSTP). Tras la caída de la dictadura de Salazar y Caetano en Portugal, en abril de 1974, el nuevo gobierno portugués se comprometió a liberar a sus colonias de ultramar. Santo Tomé y Príncipe logró su independencia el 12 de julio de 1975, eligiendo como primer presidente al secretario general del MLSTP, Manuel Pinto da Costa. En su gobierno ocupó importantes cargos la poeta Alda do Espírito Santo.

Son pocos los casos en que una mujer ha escrito la letra de un himno nacional: lo hicieron Paula von Preradović (Austria), Virginia Julia Howe (Gambia), Margaret Hendrie (Nauru), Matila Balekana (Islas Salomón), Lola Rodríguez de Tió (a quien se debe la primera versión del himno de Puerto Rico, La Borinqueña) y Alda do Espírito Santo, quien escribió la letra del himno nacional de Santo Tomé y Príncipe, “Independencia total”. La música fue compuesta por Manuel dos Santos Barreto de Sousa e Almeida.

Nacida en Santo Tomé y Príncipe en 1926, Alda Neves da Graça do Espírito Santo publicó los poemarios O Jogral das Ilhas [El juglar de las islas, 1976], y É nosso o solo sagrado da terra [Es nuestro el suelo sagrado de la tierra, 1978]. Fue secretaria general de la Unión Nacional de Escritores y Artistas de Santo Tomé y Príncipe, donde falleció el 9 de marzo de 2010. Su poesía canta a la naturaleza y al deseo de libertad y progreso de su pueblo.




Isla desnuda

Cocoteros y palmares de la Tierra Natal 
Mar azul de las islas perdidas en la conjunción de los siglos 
Vegetación densa en el horizonte inmenso de nuestros sueños. 
Verdor, océano, calor tropical 
Gritando la sed inmensa del salobre mar 
En el desierto paradójico de las playas humanas 
Sedientas de espacio y de vida 
En los cantos amargos del ossobôii 
Anunciando la llegada de las lluvias 
Barriendo con fuerza la tierra calcinada 
Saturada de calor ardiente 
Pero hambrienta de la irradiación humana 
Islas paradójicas al sur del Sará 
Los desiertos humanos claman 
En la selva virgen 
De tus destinos sin llanuras… 




Allá en el “Agua Grande”

Allá en el “Agua Grande” en camino al plantío  
las negritas golpean y golpean con la ropa en la piedra.
Golpean y cantan canciones de la tierra.
Cantan y ríen con risa de mofa  
historias contadas, arrastradas por el viento.
Ríen en voz alta y fuerte, con la ropa en la piedra  
y tornan blanca la ropa lavada.
Los niños juegan y el agua canta.  
Juegan en el agua, felices… 
Velan en el capimiii a un negrito pequeño.
Y los gemidos cantados por las negritas al otro lado del río  
se quedan allá mudos a la hora del regreso…  





Independencia total

Independencia total
Glorioso canto del pueblo 
Independencia total
Himno sagrado de combate
Dinamismo
En la lucha nacional
Juramento eterno
En el país soberano
De Santo Tomé y Príncipe
Guerrillero de la guerra sin armas en la mano
Llama viva en el alma del pueblo
Congregando a los hijos de las islas
En torno a la Patria inmortal
Independencia total, total y completa
Construyendo en el progreso y en la paz
La nación más dichosa de la tierra
Con los brazos heroicos del pueblo
Independencia total
Glorioso canto del pueblo 
Independencia total
Himno sagrado de combate
Trabajando, luchando y venciendo
Caminamos a pasos gigantes
En la cruzada de los pueblos africanos
Alzando la bandera nacional
Voz del pueblo, presente, presente en conjunto
Vibra intensa en el coro de la esperanza
Ser héroe en la hora del peligro
Ser héroe en el resurgir del país
Independencia total
Glorioso canto del pueblo 
Independencia total
Himno sagrado de combate
Dinamismo
En la lucha nacional
Juramento eterno
En el país soberano
De Santo Tomé y Príncipe

http://www.cubaliteraria.cu/articulo.php?idarticulo=18452&idseccion=55


Angolares

Canoa frágil, à beira da praia,
panos preso na cintura,
uma vela a flutuar…
Caleima, mar em fora
canoa flutuando por sobre as procelas das águas,
lá vai o barquinho da fome.
Rostos duros de angolares
na luta com o gandu
por sobre a procela das ondas
remando, remando
no mar dos tubarões
p’la fome de cada dia.

Lá longe, na praia,
na orla dos coqueiros
quissandas em fila,
abrigando cubatas,
izaquente cozido
em panela de barro.

Hoje, amanhã e todos os dias
espreita a canoa andantepor sobre a procela das águas.
A canoa é vida
a praia é extensa
areal, areal sem fim.
Nas canoas amarradas
aos coqueiros da praia.
O mar é vida.
P’ra além as terras do cacau
nada dizem ao angolar
“Terras tem seu dono”.

E o angolar na faina do mar,
tem a orla da praia
as cubatas de quissandas4
as gibas pestilentas
mas não tem terras.

P’ra ele, a luta das ondas,
a luta com o gandu,
as canoas balouçando no mar
e a orla imensa da praia.
(É nosso o solo sagrado da terra)



Lá no “Água Grande”

Lá no “Água Grande” a caminho da roça  
negritas batem que batem co’a roupa na pedra.   
Batem e cantam modinhas da terra.

Cantam e riem em riso de mofa  
histórias contadas, arrastadas pelo vento.

Riem alto de rijo, com a roupa na pedra  
e põem de branco a roupa lavada.

As crianças brincam e a água canta.  
Brincam na água felizes… 
Velam no capim um negrito pequenino.

E os gemidos cantados das negritas lá do rio  
ficam mudos lá na hora do regresso…  
Jazem quedos no regresso para a roça.



Para lá da praia

Baía morena da nossa terra  
vem beijar os pézinhos agrestes  
das nossas praias sedentas,  
e canta, baía minha  
os ventres inchados  
da minha infância,  
sonhos meus, ardentes  
da minha gente pequena  
lançada na areia  
da Praia Gamboa morena  
gemendo na areia  
da Praia Gamboa.

Canta, criança minha 
teu sonho gritante  
na areia distante  
da praia morena.

Teu teto de andala  
à berma da praia. 
Teu ninho deserto  
em dias de feira. 
Mamã tua, menino  
na luta da vida  
gamã pixi à cabeça  
na faina do dia  
maninho pequeno, no dorso ambulante  
e tu, sonho meu, na areia morena  
camisa rasgada,  
no lote da vida, 
na longa espera, duma perna inchada  
Mamã caminhando p’ra venda do peixe  
e tu, na canoa das águas marinhas … 

 — Ai peixe à tardinha 
na minha baía… 
Mamã minha serena 
na venda do peixe.



Ilha Nua

Coqueiros e palmares da Terra Natal 
Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos 
Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos. 
Verdura, oceano, calor tropical 
Gritando a sede imensa do salgado mar 
No deserto paradoxal das praias humanas 
Sedentas de espaço e devida 
Nos cantos amargos do ossobô 
Anunciando o cair das chuvas 
Varrendo de rijo a terra calcinada 
Saturada do calor ardente 
Mas faminta da irradiação humana 
Ilhas paradoxais do Sul do Sará 
Os desertos humanos clamam 
Na floresta virgem 
Dos teus destinos sem planuras… 



INDEPENDÊNCIA TOTAL (1975)

Hino da República de São Tomé e Príncipe

“Independência Total (1975)” – Hino da República Democrática de São Tomé e Príncipe (Letra de Alda Espírito Santo e música de Quintero Aguiar). Em 12 de junho de 1975, os santomenses conquistam a tão sonhada independência.


Independência total
Glorioso canto do povo
Independência total
Hino sagrado combate
Dinamismo
Na luta nacional
Juramento eterno
No país soberano
De São Tomé e Príncipe
Guerrilheiro da guerra sem armas na mão
Chama viva na alma do povo
Congregando os filhos das ilhas
Em redor da Pátria Imortal
Independência total, total e completa
Construindo no progresso e na paz
A Nação mais ditosa da terra
Com os braços heróicos do povo
Independência total
Glorioso canto do povo
Independência total
Hino sagrado combate
Trabalhando, lutando e vencendo
Caminhamos a passos gigantes
Na cruzada dos povos africanos
Hasteando a bandeira nacional
Voz do povo, presente, presente em conjunto
Vibra rijo no coro da esperança
Ser herói na hora do perigo
Ser herói no ressurgir do país
Independência total
Glorioso canto do povo
Independência total
Hino sagrado combate
Dinamismo
Na luta nacional
Juramento eterno
No país soberano
De São Tomé e Príncipe.



TRINDADE

Eu chamo-me Cravid 
E tenho um crime...
¿Nasci na Trindade?
A vida condenada.

Pintava casas
nas empreitadas da cidade.
Fui levado manhã cedo
e eles prenderam-me.

Fecharam meu corpo
Fechado de raiva
numa casa sem ar.

Camaradas de cela se cruzaram
camaradas de cela se juntaram...

E a porta de zinco ia abrindo
e sempre nascia uma esp’rança
de volver p’rá liberdade,
para o ar livre das ruas.

E a esperança saía
na porta fechada, cerrada
recebendo mais gente.
Aos vinte... trinta… quarenta…

Aos vinte, trinta, quarenta,
os gritos cresciam
as bocas secavam...
E a sede, a sede aumentava
e a gente morria sem ar...
E os tiranos zombavam no pátio.

Os gritos cresciam...
? Água, água, água...
Ar, ar!...
Num coro de morte
gritando p’la vida.

E a tarde caía
a noite chegava.
A gente morria...
Meia-noite, hora da morte...
Os coros subiam
na noite sinistra
e corpos humanos tombavam por terra.

? Ó velho, motorista Alfredo,
tu tombaste já...
Teu corpo inerte está livre
evadiu-se.
E tu, Lima,
Junto ao postigo
tu pediste ar
pediste vida
e o destino escarninho
tombou contigo no chão.
E o ar já não virá...

Um a um camaradas
um a um
no coro da angústia
se finaram, companheiros
no escuro de túmulos,
na eterna escuridão
da esperança morta.

E na manhã sinistra
de sexta-feira 6
nesse mês de Fevereiro
fatídico e cruel
eu ainda tinha vida...

Dezasseis, dezasseis homens
saíram tombando, erguendo a carcaça.
E eu fiquei.
Fiquei deitado.
Meu corpo caiu sobre os mortos
na primeira revolta.
E levantei-me.

De mim, saiu outro homem.
Eu levantei maluco
e corri à porta.
Eu gritei
p’la água que não vinha
p’la fome que tinha.

E escarrei ao carrasco
todo o fel, todo o fel
da revolta nascente.

E eles, eles, os tiranos
só ligaram meus membros
quando o corpo cansado o consentiu.

A revolta cresceu...
As lavas sufocaram os algozes
e as forças dos meus nervos
desataram as cordas.

A rebelião crescia
e os carrascos sem nome
atiraram contra mim.

E os tiros vieram
e eu resisti.
Eu não morri.

Juntos em redor de mim
cobriram de andalas meu corpo
e eu não morri.

Cresço em ondas de revolta
e estou ficando louco.

Deportaram-me
mas eu já voltei...
Meus olhos não param
e eu estou de pé. 




CONSTRUIR

Construir sobre a fachada do luar das nossas terras
Um mundo novo onde o amor campeia, unindo os homens
de todas as terras
Por sobre os recalques, os ódios e as incompreensões,
as torturas de todas as eras.
É um longo caminho a percorrer no mundo dos homens.
É difícil sim, percorrer este longo caminho
De longe de toda a África martirizada.
Crucificada todos os dias na alma dos seus filhos.
É difícil sim, recordar o pai esbofeteado
pelo despotismo dum tirano qualquer,
a irmã violada pelo mais forte, os irmãos morrendo nas minas
Enquanto os argentários amontoam o oiro.
É difícil sim percorrer esse longo caminho
Contemplando o cemitério dos mortos lançados ao mar
Na demência dum louco do poder, caminhando impune
para a frente, sem temer a justiça dos homens
É difícil sim, perdoar os carrascos
Esquecer as terras donde nos escorraçaram
As galeras transportando nossas avós para outros continentes
Lançando no mar as cargas humanas
Se os navios negreiros têm lastro em demasia, é difícil sim,
Esquecer todos esses anos de torturas e inundar o mundo
De luz, de paz e de amor, na hora fatal do ajuste de contas.
É difícil sim, mas um erro não justifica outro erro igual.
Na construção de um mundo novo à sombra das nossas
Terras maravilhosas, juramos não sofrer uma afronta igual
Mas receber conscientes o amor onde há fraternidade
Espalhando assim o grito potente da nossa apregoada selvajaria
Mas essa hora tarde e os gritos do deserto espreitam
Por sobre as nossas cabeças encanecidas da longa espera
Mas os nossos sonhos hão-de abrir clareiras nos eternos luares
Dos nossos desertos assombrados. 









miércoles, 17 de septiembre de 2014

FRANCISCO JOSÉ TENREIRO [13.360]


Francisco José Tenreiro

(1921-1963)
Francisco José Tenreiro nació en Río de Ouro, Sao Tomé, en 1921. Se doctoró en Ciencias Sociales y en Geografía. Poeta, ensayista, sociólogo, crítico literario y cuentista, se considera un verdadero fenómeno en el contexto de su tiempo y de su espacio. Murió en Lisboa en 1963.

Obras: Ilha do Nome Santo, "Novo Cancioneiro", Coimbra, 1942; Obra Poética de Francisco José Tenreiro, 1967; A Ilha de São Tomé-Estudo Geográfico, Lisboa, 1961

Francisco José Tenreiro was born in  en Río de Ouro, Sao Tomé, in 1921. PhD in Social Science and Geography.. Poet, writer, critic and storyteller  and considered one of the best writers in his time frame. He died in Lisbon in 1963.






CUERPO MORENO

Si yo dijera que su cuerpo moreno
tiene el ritmo de la cobra negra al deslizarse
mentiría.
Mentiría si comparara tu rostro fruto
al de las estatuas adormecidas de las viejas civilizaciones de África
con ojos rasgados en sueños de plenilunio
y boca en secretos de amor.
Como mi isla es tu cuerpo mulato
fuerte tronco que da
amorosamente ramas, hojas, flores y frutos
y hay frutos en la geografía de su cuerpo.
Tu rostro de fruto
ojos oblicuos de safu,
boca fresca de frambuesa silvestre
eres tú.
Eres tú mi isla y mi África
fuerte y desdeñosa de los que te hablan en derredor.




DARK  BODY

If I said that her brown body
has the pace of the sliding  black cobra
I would lie.
I would lie if I was to compare your fruit face
with the sleepen face of  the statues of the old civilizations of Africa
slit holes in dreams full moon
and mouth with  secrets of love.
As my island is your body mulatto
strong trunk growing
lovingly branches, leaves, flowers and fruits
and there is fruit in the geography of your body.
Your face of fruit
safu oblique eyes,
wild raspberry flavoured mouth
it is you.
You are  my island and my Africa
strong and dismissive of talk  around you.




CORAÇÃO

Caminhos trilhados na Europa
de coração em África.
Saudades longas de palmeiras vermelhas verdes amarelas
tons fortes da paleta cubista
que o sol sensual pintou na paisagem;
saudade sentida de coração em África

ao atravessar estes campos do trigo sem bocas
das ruas sem alegria com casas cariadas
pela metralha míope da Europa e da América
da Europa trilhada por mim negro de coração em África.
De coração em África na simples leitura dominical
dos períodos cantando na voz ainda escaldante da tinta
e com as dedadas de miséria dos ardinas das cities
                                     [boulevards e baixa da Europa
trilhada por mim Negro e por ti ardina
cantando dizia eu em sua voz de letras as melancolias do
                                    [orçamento que não equilibra
do Benfica venceu Sporting ou não
ou antes ou talvez seja que desta vez vai haver guerra
para que nasçam flores roxas de paz
com fitas de veludo e caixões de pinho;
oh as longas páginas do jornal do mundo
são folhas enegrecidas de macabro clue
com mourarias de facas e guernicas de toureiros.
Em três linhas (sentidas saudades de África) –
Mac Gee cidadão da América e da democracia
Mac Gee cidadão Negro e da negritude
Mac Gee cidadão Negro da América e do Mundo Negro
Mac Gee fulminado pelo coração endurecido feito cadei-
                                                           [ra eléctrica
(do cadáver queimado de Mac Gee do seu coração em  
                                               [África e sempre vivo
floriram flores vermelhas flores vermelhas flores vermelhas
e também azuis e também verdes e também amarelas
na gama policroma da verdade do Negro
na inocência de Mac Gee) – ;
três linhas no jornal como falso cartão de pêsames.
Caminhos trilhados na Europa
de coração em África.
De coração em África com o grito seiva bruta dos poemas
                                                            [de Guillén
de coração em África com a impetuosidade viril de I tôo
                                                         [am América
de coração em áfrica com as árvores renascidas em
                     [todas estações nos belos poemas de Diop
de coração em África nos rios antigos que o Negro
                   [conheceu e no mistério do Chaka-Senghor
de coração em África contigo amigo Joaquim quando em
                                               [versos incendiários
cantaste a África distante do Congo da minha saudade do
                                      [Congo de coração em África
de Coração em África ao meio-dia do dia de coração em
                                                                  [África
com o Sol sentado nas delícias do zênite
reduzindo a pontos as sombras dos Negros.
Amodorrando no próprio calor da reverberação os mos-
                                   [quitos da nocturna picadela.
De coração em África em noites de vigília escutando o
                                               [olho mágico do rádio
e a rouquidão sentimento das inarmonias de Armstrong.
De coração em África em todas as poesias gregárias ou
                                               [escolares que zombam
e zumbem sob as folhas de couve da indiferença
mas que têm a beleza das rodas de crianças com papagaios
                                                                  [garridos
e jogos de galinha branca vai até França
que cantam as volutas dos seios e das coxas das negras e
                                                                  [mulatas
de olhos rubros como carvões verdes acesos.
De coração em África trilho estas ruas nevoentas da cidade
de África no coração e um ritmo de be bop be nos lábios
enquanto que à minha volta sussura olha o preto (que
         [bom) olha um negro (óptimo) olha um mulato
                   [(tanto faz) olha um moreno (ridículo)
e procuro no horizonte cerrado da beira-mar
cheiro de maresias distantes e areias distantes
com silhuetas de coqueiros conversando baixinho à brisa
                                                                [da tarde
De coração em África na mão deste Negro enrodilhado e
                                                    [sujo de beira-cais
vendendo cautelas com a incisão do caminho da cubata
                                 [perdida na carapinha alvinitente;
de coração em África com as mãos e o pés trambolhos
                                                              [disformes
e deformados como os quadros de Portinari dos
                                                [estivadores do mar
e dos meninos ranhosos viciados pelas olheiras fundas
                                               [das fomes de Pomar
vou cogitando na pretidão do mundo que ultrapassa a
                                               [própria cor da pele
dos homens brancos amarelos negros ou às riscas
e o coração entristece à beira-mar da Europa
da Europa por mim trilhada de coração em África;
e chora fino na arritmia de um relógio cuja corda vai estalar
soluça a indignação que fez os homens escravos dos
                                                                  [homens
mulheres escravas de homens crianças escravas de
                            [homens negros escravos dos homens
e também aqueles que ninguém fala e eu Negro não
                                                           [esqueço
como os pueblos e os xavantes os esquimós os ainos eu
                                                                     [sei lá
que são tantos e todos escravos entre si.
Chora coração meu estala coração meu enternece-te meu
                                                                  [coração
de uma só vez (oh órgão feminino do homem)
de uma só vez para que possa pensar contigo em África
na esperança de que para o ano vem a monção torrencial
que alagará os campos ressequidos pela amargura da
         [metralha e adubados pela cal dos ossos de Taszlitzki
na esperança de que o Sol há-de prenhar as espigas de
                                 [Trigo para os meninos viciados
e levará milho às cabanas destelhadas do último rincão da
                                                                     [Terra
distribuíra o pão o vinho e o azeite pelos alíseos;
na esperança de que às entranhas hiantes de um menino
                                                                  [antípoda
haja sempre uma túlipa de leite ou uma vaca de queijo
                            [que lhe mitigue a sede da existência.
Deixa-me coração louco
Deixa-me acreditar no grito de esperança lançado pela
                                               [paleta viva de Rivera
E pelos oceanos de ciclones frescos das odes de Neruda;
deixa-me acreditar que do desespero másculo de Picasso
                                                        [sairão pombas
que como nuvens voarão os céus do mundo de coração
                                                            [em África.






RITMO PARA A JÓIA DAQUELA ROÇA

Dona Jóia dona
dona de lindo nome
tem um piano alemão
desafinando de calor.

Dona Jóia dona
do nome de Sum Roberto
está chorando nos seus olhos
de outras terras saudades.

Dona Jóia dona
dona de tudo que é lindo:
do oiro cacaueiro
do café de frutos vermelhos
das brisas da nossa ilha.

Dona Jóia dona
dona de tudo que é triste:
meninos de barriga oca
chupando em peitos chatos;
negros de pezão grande
trabalhando pelos matos.

Ai! Dona Jóia,
dona de mim também –
Jesus, Maria, José
Credo! –
não me olhe assim-sim
que me pára o coração!






CANÇÃO DO MESTIÇO

Mestiço

Nasci do negro e do branco
e quem olhar para mim
é como que se olhasse
para um tabuleiro de xadrez:
a vista passando depressa
fica baralhando cor
no olho alumbrado de quem me vê.

Mestiço!

E tenho no peito uma alma grande
uma alma feita de adição.

Foi por isso que um dia
o branco cheio de raiva
contou os dedos das mãos
fez uma tabuada e falou grosso:
– mestiço!
a tua conta está errada.
Teu lugar é ao pé do negro.

Ah!
Mas eu não me danei...
e muito calminho
arrepanhei o meu cabelo para trás
fiz saltar fumo do meu cigarro
cantei alto
a minha gargalhada livre
que encheu o branco de calor!...

Mestiço!

Quando amo a branca
sou branco...
Quando amo a negra
sou negro.
Pois é... 






FRAGMENTO DE BLUES
(A Langston Hughes)

Vem até mim
nesta noite de vendaval na Europa
pela voz solitária de um trompete
toda a melancolia das noites de Geórgia;
oh! mamie oh! mamie
embala o teu menino
oh! mamie oh! mamie
olha o mundo roubando o teu menino.

Vem até mim
ao cair da tristeza no meu coração
a tua voz de negrinha doce
quebrando-se ao som grave dum piano
tocando em Harlem:
– Oh! King Joe
King Joe
Joe Louis bateau Buddy Baer
E Harlem abriu-se num sorriso branco
Nestas noites de vendaval na Europa
Count Basie toca para mim
e ritmos negros da América
encharcam meu coração;
– ah! ritmos negros da América
encharcam meu coração!
E se ainda fico triste
Langston Hughes e Countee Cullen
Vêm até mim
Cantando o poema do novo dia
– ai! os negros não morrem
nem nunca morrerão!

...logo com eles quero cantar
logo com eles quero lutar
– ai! os negros não morrem nem
nem nunca morrerão!     






MÃOS

Mãos que moldaram em terracota a beleza e a serenidade do Ifé.
Mãos que na cera polida encontram o orgulho perdido do Benin.
Mãos que do negro madeiro extraíram a chama das estatuetas olhos de vidro
e pintaram na porta das palhotas ritmos sinuosos de vida plena:
plena de sol incendiando em espasmos as estepes do sem-fim
e nas savanas acaricia e dá flores às gramíneas da fome.
Mãos cheias e dadas às labaredas da posse total da Terra,
mãos que a queimam e a rasgam na sede de chuva
para que dela nasça o inhame alargando os quadris das mulheres
adoçando os queixumes dos ventres dilatados das crianças
o inhame e a matabala, a matabala e o inhame.

Mãos negras e musicais (carinhos de mulher parida) tirando da pauta da Terra
o oiro da bananeira e o vermelho sensual do andim.
Mãos estrelas olhos nocturnos e caminhantes no quente deserto.
Mãos correndo com o harmatan nuvens de gafanhotos livres
criando nos rios da Guiné veredas verdes de ansiedades.
Mãos que à beira-do-mar-deserto abriram Kano à atracção dos camelos da ventura
e também Tombuctu e Sokoto, Sokoto e Zária
e outras cidades ainda pasmadas de solenes emires de mil e mais noites!


Mãos, mãos negras que em vós estou pensando.

Mãos Zimbabwe ao largo do Indico das pandas velas
Mãos Mali do sono dos historiadores da civilização
Mãos Songhai episódio bolorento dos Tombos
Mãos Ghana de escravos e oiro só agora falados
Mãos Congo tingindo de sangue as mãos limpas das virgens
Mãos Abissínias levantadas a Deus nos altos planaltos:
Mãos de África, minha bela adormecida, agora acordada pelo relógio das balas!

Mãos, mãos negras que em vós estou sentindo!

Mãos pretas e sábias que nem inventaram a escrita nem a rosa-dos-ventos
mas que da terra, da árvore, da água e da música das nuvens
beberam as palavras dos corás, dos quissanges e das timbilas que o mesmo é
dizer palavras telegrafadas e recebidas de coração em coração.
Mãos que da terra, da árvore, da água e do coração tantã
criastes religião e arte, religião e amor.

Mãos, mãos pretas que em vós estou chorando!






CANTO DE OBÓ

O sol golpeia as costas do negro
e os rios de suor ficam correndo.  

Ardor!  

Os olhos do branco
como chicotes
ferem o mato que está gritando... 

Só o água sussurante/calmo
corre prao mar
tal qual a alma da terra! 

topo






O MAR 

A voz branca que está no mato
perde-se na imensidão do mar.
Lá vai!
O sol bem alto
é uma atrapalhação de cor.
-Abacaxi safo nona
carregozinho do barco!...  

Um tubarão passando
é um risco de frescura.
Lá vai! 

O barco deslizando
só com a vontade livre e certa do negro
lá vai!